sábado, 28 de dezembro de 2019

O fechar de olhos


destino 
sm (des+tino)
1. Série de fatos a que supostamente estão sujeitas as pessoas e as coisas do Universo, independentemente da vontade humana;
2. Baixel, dita, fado, fortuna, sorte
3. O que está por vir; o que acontecerá a alguém ou a algo; futuro

escolha 
sf (lat excolligĕre)
1. Preferência que se dá a uma pessoa, um animal ou uma coisa entre outras;
2. Opção entre duas ou mais coisas; preferência.
3. Café de qualidade inferior.






O fechar de olhos

Ao fechar os olhos
é quando vejo mais,
pois sou maior para dentro
que para fora.

Ao fechar os olhos
é quando penso mais,
pois as luzes se apagam
e caminho sem medo.

Ao fechar os olhos
ouço o estridular do grilo,
que canta, com o mesmo tom,
o meu amor e minha solidão.

Quando uma pálpebra
encosta na outra
sinto o peso das escolhas,
as erradas e as ausentes.





quinta-feira, 16 de março de 2017

Vou-me embora pra Pasárgada

desabafo
substantivo masculino
1. Manifestação de sentimentos longamente contidos; desafogo:

empatia
substantivo feminino
1.  Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa.
2.  Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem.

desistir
verbo transitivo indireto e verbo intransitivo
1. Não continuar em seu propósito; renunciar: 



Vou-me embora pra Pasárgada





Você faz de tudo, tudo!, para salvar a vida de uma criança com insuficiência respiratória aguda que teve parada cardiorrespiratória. 
Intuba, massageia, faz adrenalina. 
Infelizmente não dá certo. 
O anjinho falece.
Você fala com a família, com muito cuidado, pois a mãe da criança está grávida da próxima, aguarda o tempo de assimilação da notícia (que não é fácil dar nem receber), vai colher a história com os últimos médicos que atenderam o bebê, para ver onde poderia ser feita a medida salvadora de vida.
Tudo isso leva tempo.
Tudo na vida leva tempo.
E, neste tempo, da sala da assistente social, dá para ouvir gritos de um casal de idosos.
Eles querem que a filha seja atendida imediatamente.
Ela está com tosse e resfriado há 4 dias.
Quatro dias.
Atendimento imediato!
Antes de resolvermos a maior das tragédias.
A morte de um bebê.
Durante o atendimento a avó já começa mal.
Já deu amoxicilina em casa sem orientação médica.
Depois pede xarope pra tosse.
Não existe xarope pra tosse.
Existe hidratação oral pra tosse.
Existe lavagem nasal pra tosse.
Existe nebulização com soro pra tosse.
Ela sai indignada.
Me chama de veterinária.
Hoje recebo uma Ouvidoria pedindo explicações.
Sério, não quero mais viver neste mundo, com esse tipo de gente.
É por isso que vou pro Canadá.
Lidar com números.
Eles não são insensíveis ao sofrimento alheio.
Eles não me chamam de Veterinária.
Eu, que fiz tudo para salvar uma vida.
E parte da minha foi embora com a morte do guri.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

John Doe

resistência
substantivo feminino
1. Ato ou efeito de resistir.
2. Capacidade que uma força tem de se opor a outra.
(...)
4. Defesa contra uma investida.
5. Recusa do que é considerado contrário ao interesse próprio.
6. Mecanismo de defesa utilizado pelo analisando para recusar-se a não tomar consciência de suas motivações, dificultando o retorno aos traumas vivenciados.




suicidar-se
verbo pronominal
1. Pôr termo à própria vida; cometer suicídio, matar-se.

casar
verbo pronominal1. Unir-se pelos laços matrimoniais; embirar.
(...)5. Agrupar(-se), em pares, por certas afinidades:


John Doe

Ela olha o vestido meticulosamente branco e passado, como se branco fosse seu passado e disso dependesse seu presente. Os sapatos estão ao lado dos cactos, contra a luz, na janela. Suspira e lembra-se do primeiro encontro deles, num pub irlandês, expectativas de mais para um rapaz com roupas de marca de menos. Cercada de amigas e risadas abre uma pequena caixa marrom com uma joia, que fora da sua mãe, ou da mãe dela, ou da mãe de alguém, ou de mãe nenhuma. Não conseguiu ouvir direito. Silencioso também foi seu ganido, desesperado, que passou incólume.

Ele afivela o cinto com dificuldade, abotoa as mangas da camisa larga e aceita que nem no seu casamento as vestes cairão bem. Os trajes de tamanho normal ficam apertados e os um pouco maiores ficam largos demais. Sempre se manteve neste limbo, solitário, até encontrá-La. Nunca foi um garoto magro, pelo contrário, esse menino não come nada e tem esse corpo, ouvia seu médico a cada consulta. Ainda assim, com sua insegurança escondida pelos vultos da internet, conseguiu um primeiro encontro e, embora indo sem acreditar, foi acreditado e culminou no dia de hoje.

Ela pinta de preto os olhos, porque Ele gosta, talvez, e passa rímel nos cílios que não são seus. Suas bochechas já se encontram exageradamente rosadas e os cachos, forjados no calor, com spray. O vermelho faz-se presente na boca e nas mãos. Fecha o vestido com ajuda da irmã, mais velha e mais bem resolvida, calça os sapatos, olha-se no espelho, sorri, insegura, inspira profundamente e desce as escadas do hotel.

Ele arruma a gola da camisa, acerta o nó na gravata, ajeita a do pai que, descrente até aquele instante, não conseguia parar de tremer as mãos tão destras de padeiro. Amarra os sapatos, pretos e polidos, coloca as alianças no bolso e desce as escadas do hotel.

Na igreja os poucos amigos estão amontoados, com vestimentas recicladas e o celular em riste. Ela chega acompanhada do pai, mãos dadas, segurando o choro. Uma hora se passa, os burburinhos vão ficando altos. E ele? Deitado com o terno sujo de sangue, após o estampido da arma contra o peito, num banheiro do posto em que parou para aliviar-se. Aliviou-se! Não suportou o amor.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Transgressão


transgredir
lat transgrĕdi
1. Ir além dos termos ou limites..

transgênero
lat trans+lat genus, -ĕris
1. Diz-se de ou pessoa que age, tanto socialmente quanto na vida privada, como se pertencesse ao sexo oposto. É um termo que se refere a transexuais e travestis.



O Mc Donalds do Shopping Tijuca tem uma travesti como atendente. Voz grossa, traços rudes, rosto caricato. Início de transição. Pacote completo para ser motivo de chacota entre mentes pequenas. Mas não. Ela é dinâmica, sorridente, boa no que faz, interage bem com os colegas. Sinal de um ambiente funcional. Sinal de harmonia "na casa". Sinal de respeito e integração. Sinal de que, na dança da vida, ela não fica sentada no cantinho esperando o fim da festa.

Não me orgulho em comer o sanduíche do Mc Donalds tendo opções mais saudáveis. Entretanto me orgulha contribuir com uma instituição que tem atitudes saudáveis e dá oportunidade a pessoas como esta atendente. Na festa da vida tiraram-na pra dançar. E nada mais importa quando estamos dançando. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Os irmãos


nascimento 
sm (nascer+mento) 

1. Ato de nascer; nascença. 
2. Procedência pelo sangue; estirpe, geração, progênie. 
3. Aparecimento, começo, origem, princípio. 
4. Aparecimento de um astro.

predição sf (lat praedictione) 
1. Ato ou efeito de predizer; prognóstico, vaticínio. 
2. Coisa predita.





Os irmãos


ontem olhei pra cima
e vi o céu 
nos olhos dos 
filhos do meu irmão

mui alvos metediços 
fitavam o presente,
que era o passado,
e o passado do passado

suas turquesas alcançaram
Mary Cassatt, 
impressionista,
impressionada!

e assim nasceram
Nicolas e Laura,
entrelaçados,
em 1885



quinta-feira, 7 de abril de 2016

Antibiótico


antibiótico 
adj (anti+bio+t+ico) 
1. Que tende a impedir ou inibir a vida, ou produzir a morte. 
2. Relativo ou pertencente à antibiose. 
3. Substância produzida por célula viva (bactéria, mofo, levedura e outros vegetais) capaz de impedir a proliferação ou de causar a morte de germes patogênicos. Algumas dessas substâncias são também produzidas sinteticamente.

aptidão 
sf (lat aptitudine) 
1. Qualidade que faz com que um objeto seja apto, adequado ou acomodado para certo fim. 
(...)
3. Capacidade para alguma coisa; disposição, habilidade, talento. 
4. Capacidade natural de adquirir conhecimentos ou habilidades motoras, gerais ou específicas, e que se caracteriza segundo o rendimento dessa aquisição. 



Eu nunca tive aptidão para aprender antibioticoterapia. Se meus colegas de faculdade entendiam depois da primeira ou segunda lida no livro texto eu tinha que me esforçar duas ou três vezes mais para saber quais eram gram positivos, como as quinolonas agiam e por qual mecanismo certas bactérias criavam resistência às penicilinas. Acho que eu criava resistência aos antibióticos. Quase sete anos depois suspeito o mecanismo.

Sou movida a lógica. E a desafios, mas o que convém neste insight é o raciocínio. Nunca fui desafiada pelos antibióticos. Para mim eles são como aquele primo mais novo cheio de certezas chatas e entediantes que faz você querer ser grande logo para poder sentar-se à mesa das crianças maiores e falar de assuntos mais sérios, como o paquerinha do colégio.

Nunca entendi, além do óbvio, o porquê do meningococo não reter o cristal violeta na sua parede e o pneumococo sim. Ou a razão do anel carbapenêmico agir bem sobre bactérias gram positivas e negativas. Pra mim não faz sentido. Não é intuitivo. É como decorar datas nas aulas de história. As cefalosporinas são mais eficazes contra gram negativo conforme passam as gerações. Por quê? Em 1 de janeiro de 1886 a Birmânia foi oferecida à Rainha Vitória do Reino Unido. Ah, tá. A Moraxella catarrhalis é o que, afinal? Respondo os autoquestionamentos com um grande bocejo.

Sigo na seleção própria de resistência aos antimicrobianos. E diante das escolhas da vida sempre surge a dúvida: e aí? Cefepime e Vanco ou Pip’e Tazo?

sábado, 30 de janeiro de 2016

Não, não sou médica

desistir 
(lat desistire) 

1. Não continuar, não prosseguir (num intento); renunciar. 
(...)
3. Exonerar-se. 

Medicina sf (lat medicina) 
1. Arte e ciência de curar e prevenir as doenças. 
2. Cada um dos sistemas (alopatia, homeopatia, medicina natural) empregados para debelar as doenças. 
3. A profissão de médico. 



A partir de hoje não sou mais médica. Foi uma decisão natural a se tomar. Não sou mais médica. Não aos prestadores de serviço que me questionam a profissão.

Na quase totalidade das vezes que digo a estranhos que sou médica encontro dois tipos de pessoas: os que reclamam de outros médicos pra mim; os que filam uma consultinha. Ambas, em maior ou menor grau, me ofendem. Ambas, em maior ou menor grau, desvalorizam a minha profissão.

Decidi trocar lamúrias ou favores por surpresa e criatividade. A partir de hoje serei astronauta – e conversarei sobre os novos planos dos Estados Unidos para Marte -; serei taróloga, e contarei que Marte em Vênus trará novos ares e mudanças amorosas; agente de viagens e comentarei como o preço do dólar e a nova tributação atrapalham as vendas dos pacotes pro exterior; filósofa e explicitarei a influência de Heráclito, o Obscuro, e seu ‘panta rei’ no pensamento contemporâneo.

Originalidade e atualidades me farão bem. Não ouvirei mais queixas sobre médicos nem pedidos de atestado para academia. Afinal, a partir de hoje não sou mais médica.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

2015


Liberdade
sf (lat libertate) 
1. Estado de pessoa livre e isenta de restrição externa ou coação física ou moral. 
2. Poder de exercer livremente a sua vontade. 
(...)
4. Condição do ser que não vive em cativeiro. 
(...)
7. Independência, autonomia. 
8. Ousadia. 
9. Permissão. 
10. Imunidade.



2015 foi um ano de muitas lágrimas pra mim. Chorei porque consegui o emprego que queria, porque fiquei frustrada, porque consegui um apartamento novo pra morar; choraminguei porque fui avacalhada na residência, porque conheci pessoas excelentes na residência, porque fiquei muito doente na residência; lacrimejei porque recebi presentes maravilhosos do Star Wars nos amigos ocultos de fim de ano, porque me senti muito sozinha, porque recebi abraços e convites inesperados em momentos de fragilidade. Mas estes são só os fins. O mais valoroso é o meio. O verbo. Chorei. 

Neste ano, mais que em qualquer outro, entrei em contato com meus sentimentos e pude experienciá-los do modo mais livre até hoje. Com menos medo, menos vício de pensamento, mais razão, mais emoção. Tive o insight na terapia e chorei por conseguir, finalmente, chorar.

A água circula por um riacho como as sensações passam pelo corpo. Há vários poços por onde a água roda antes de fluir. Esses poços são como os nossos sentimentos. Se não houvesse nada em volta o riacho fluiria puro e claro, porém a vida tumultuada, as experiências ruins e os traumas (principalmente infantis) tendem a cair no riacho, então este não pode correr serenamente. Se abrirmos os caminhos entre os poços elaborando as sujeiras do pensamento a energia flui, limpando e desenferrujando todos os nossos sentimentos.

Em terapia meus medos têm ficado claros para mim. Olho toda a culpa que carrego. Do que me culpo? Quais são minhas maiores decepções comigo mesma? Aceitar a realidade de que essas coisas aconteceram sem deixar que elas nublem minhas emoções foi uma cutucada na sujeira do poço. Se quero ser uma influência positiva para os que me cercam tenho que perdoar a mim mesma. Eu jamais chegarei ao equilíbrio se negar partes da minha vida. Os sentimentos são bloqueados pelas mentiras que contamos a nós mesmos. Não podemos mentir sobre a nossa própria natureza.

Cavei fundo e deparei com um mar de emoções – antes ocultadas - este ano. A manifestação da liberdade são as lágrimas. A porta sem maçaneta está aberta. Choro e chorarei sempre a partir de 2015. Os sentimentos hão de fluir como o riacho.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Sabor de mãe



Gatorade 
1. Marca de bebida isotônica, constituída por água, sais minerais e maltodextrina, em concentração similar à dos fluidos naturais do corpo humano. 
2. É considerada um repositor hidroeletrolítico. 

mãe 
sf (lat matre) 
1. Mulher, ou fêmea de animal que teve um ou mais filhos. 
2. Ascendente feminino em primeiro grau. 
(...) 
5. Mulher generosa, que dispensa cuidados maternais. 
6. Pessoa que protege muito a outra. 

infância 
sf (lat infantia) 
1. Período da vida, no ser humano, que vai desde o nascimento até a adolescência; meninice. 
(...) 
4. O começo da existência de alguma coisa. 



Gatorade de limão tem o sabor da minha mãe. E no primeiro gole ela está ao meu lado. 
Eu tenho oito anos e uma diarreia. Ela traz o remédio: Gatorade de limão. 
Sinto o gosto dos passos dela empunhando a fórmula. Pó na água. Tudo branco. 
É para não ficar no hospital tomando soro na veia. 
Tento, mas sou lavada pelo vômito. E sinto o cheiro dela vindo com mais. 
Não vai ter jeito. Não teve jeito, tomei soro na veia. E muito Gatorade de limão. Como agora. 
Gatorade de limão tem o sabor da minha mãe. E no primeiro gole ela está ao meu lado.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Privança


intimidade 
sf (íntimo+i+dade) 
1. Qualidade de íntimo. 
2. Amizade íntima, relações íntimas.
3. Familiaridade.

fim 
sm (lat fine) 
1. Termo, conclusão, remate. 
(...)
3. Intenção, propósito. 
4. Escopo, alvo, objeto, fito, mira. 
5. Morte. 







Privança

A intimidade, 
uma vez dada, 
só tem dois fins:

o amor 
ou 
a mor
te   





quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Pranto

pranto 
sm (lat planctu) 
1. Choro, lágrimas, lamentação. 
2. Antiga poesia elegíaca em que se lamentava a morte de pessoa ilustre. 
3. Cantiga, serenata, tocata.

elaboração 
sf (lat elaboratione) 
1. Ato ou efeito de elaborar, preparar ou concluir. 
2. Transformação das idéias imediatas em elementos da personalidade

autognose 
sf (auto+gnose) 
1. Psicol: Conhecimento, estudo ou apreciação de si próprio.





Pranto

Nada melhor
do que lágrimas catárticas
que lavam o chão
das poeiras da alma.

Nada melhor
do que lágrimas espásticas
que suscitam abnegação
frente ao golpe da palma.

Nada melhor
do que lágrimas fantásticas
que compõem o pão
que nutre a calma.

E se, mesmo assim, houver
menos força que fé

pense direito, mulher!
Não com não é sim,

e a escuridão não é funda assim:

é da altura do pé.






segunda-feira, 6 de abril de 2015

Chi mangia solo crepa solo

solitùdine
s.f.
1. Lo stare, il vivere solo
2. Luogo solitario

rimpiàngere
v.tr.
1. Ricordare con desiderio e rammarico cose o persone che non si hanno più

desideràre
v.tr.
1. Provare desiderio di qualcosa, aspirare alla soddisfazione di un bisogno o di un piacere




Entediado criou o Céu e a Terra e, para cada folha nesta, uma estrela naquele. Então vieram as moneras e os planetas, as quimeras e as borboletas e, para cada trinar de pássaro, um asteróide se acinturava entre Marte e Júpiter. Depois, os cometas nadantes e os peixes cadentes, as nuvens errantes e os astros ardentes.

Malcontente, dobrou os elementos e do carbono fez o homem, do magnésio os marcianos e saturninos os saturnianos. Num apontar de dedo os cromos de Marte juntaram-se e perguntaram-se “quem sou eu? de onde viemos?” e os plutonianos gastaram anos admirando Caronte com suas fossetas amoníacas.

Por fim, com o último grama de barro, argila já arenosa, pálida, seca, criou a mim, mais um entre o exército de terracota. Assoprou em minhas narinas seu hálito de vida, porém, já cansado, descuidou-se e foi ar pra todo lado; pouco me adentrou. À parte disto abriu meus olhos e andei.

A camada fina entre o ar circundante e um vazio sobrenatural rilhava conforme os passos da vida. A cada embaraço uma trinca; às passadas sólidas outras apareciam como o gelo cedente na superfície de um lago congelado frente à Primavera. Adelgaçava-me, conforme crescia o oco maldito, ao limite do suportável.


Pois bem: enfim descansei. Sou pó e ao pó da terra retornei.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

À vida

percalço
sm
1. Contrariedade, ossos do ofício, transtorno

resiliência
sf (ingl resilience)
1. Habilidade de se adaptar com facilidade às intempéries, às alterações ou aos infortúnios.

esperança
sf (de esperar)
1. Ato de esperar;
2. Expectativa na aquisição de um bem que deseja;
3. Aquilo que se espera, desejando.



À vida


a vida é feita de cassa:
mostra teu dorso desnudo,
estoura num golpe teu escudo,
bate, beija e passa.

é mão de mãe pesada
que cai na bunda com carinho
te levanta numa lufada
te cava no asfalto um novo caminho

diante da conta que não vimos,
que insiste em subtrair,

não desistimos,
só deixamos de insistir.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Le chagrin



chagrin  
adj m  
1. triste, ayant de la mélancolie
2. tristesse, souffrance
3. mal d'amour (chagrin d'amour)

nostalgie   
nf
1. tristesse due à l'éloignement de son pays natal, regret pour le passé  







Por que dói o coração
enquanto os pássaros trinam,
os cães o rabo balançam
e as folhas das árvores bailam?

Por que dói o coração
enquanto os brancos caminham na praia,
os pobres justos trabalham
e as moças afáveis sorriem na baia?

Por que dói o coração
apesar do tempo que passa,
dos ensejos que brotam
e da dor que ultrapassa?

Por que dói o coração
enquanto tenho como antessala
um corpo vermelho caído 
entre a arma e a vala?

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Fugere Brasiliam



fugir
vti e vint  (lat fugere)
1. Pôr-se em fuga; afastar-se rapidamente para evitar perigo, incômodo ou alguém;
2. Retirar em debandada;
3. Ir-se afastando, ir-se perdendo de vista;

despatriado
adj (des+pátria+ado)
1. Expulso da pátria; expatriado, exilado.
2. Que não tem pátria: apátrida.

desilusão
sf (des+ilusão)
1. Efeito de desiludir, desengano
2. Perda de ilusão;



“Eu fui aquele que andou
sessenta léguas num dia
para ver se breganhava
tristeza por alegria.”



Já de volta ao Brasil, devidamente descansada da viagem, depois de tudo que vivi na última semana, me coloquei a pensar. E conversei com pessoas queridas. E repensei. E ainda estou pensando, mas hei de colocar as ideias parciais aqui antes que me perca nos sonhos ou as perca à realidade.

A vida fora do Brasil é uma vida boa. Mesmo diante da crise é bem vivida, melhor que aqui, segundo critérios objetivos meus como educação (estudada), educação (aprendida através do exemplo), estímulo ao lazer e oportunidades de trabalho. Na decadente Argentina, por exemplo, quase todos sentados num pub ou restaurante, durante o dia, liam seus livros ou jornais numa paz e concentração invejáveis. Lá há o estímulo à boa gastronomia, ao passear pelos parques com a família nos feriados, ao uso da bicicleta como meio de locomoção. Por onde olhava havia sempre um movimento, rítmico, sem o compasso apressado a qual infelizmente me acostumei. Um dinamismo de vida, não apenas existência.

Ao voltar ao meu país me deparei com preços absurdos de coisas simples sobretaxadas, a cultura da lei de Gérson, um clima que agride, um crime que agride. Não é um sentimento convidativo, aconchegante, como o retornar à casa dos pais. Entre país e pais só há a diferença no acento agudo. Ou assim deveria ser. Eventualmente, portanto, concluo, sairei do Brasil, seja para continuar minha missão como médica, seja para recomeçar da base, fênix desapegada e corajosa que sempre fui.

Outro ponto é a valoração das amizades e das boas companhias como meta de vida. Enquanto escrevemos o livro da nossa história conhecemos muitas pessoas. Algumas se tornam nossas colegas (pelos mais diversos motivos, como identificação unilateral, proximidade geográfica, pensamentos similares, mas nem tanto) e raríssimas entram pro patamar de amigas. Aferimo-las pela atemporalidade, não restrição à localidade, pelas características amorfa e quase incondicional da intimidade. Na viagem de agora foi regada uma flor plantada no meu jardim há cerca de 20 anos e que traz suspiros de conforto e proteção a cada encontro. Com ela vieram sua mãe e avó, lírio e margarida, conhecidas à idade similar, mas nunca com tamanha e intensa convivência, mui agradáveis surpresas. À parte desta digressão, ainda estou sob os efeitos terapêuticos do ungüento feito à base de 6 dias de prazeirosa lapidação. E penso!

Ainda no meu terreno fértil, porém de cercas altas e farpadas, existem plantas de tempos variáveis. Algumas com 6 anos de plantio, outras com 9, poucas com mais (ou menos) que este intervalo. A óbvia interpretação deste gráfico imaginário é a abertura escassa do espaço ao plantio, arado, poda e compostagem. Existem menos flores que o espaço suporta pela não permissão, da minha parte, à polinização feita pelas abelhas que passam pelo meu cotidiano. Muitos girassóis-semente deixam de nascer pela ausência d'um punhado de terra. Privo-me da beleza, perfume e cura da flora que poderia estar, mas não o faz, ao alcance de um braço ou abraço.

Agora não mais! Está aberta a temporada de atração às abelhas! E os pensamentos continuam.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Amistad



amizade
sf (lat amicitate)
1. Sentimento de amigo; afeto que liga as pessoas.
2. Reciprocidade de afeto.
3. Benevolência.
4. Amor.

ligação
sf (lat ligatione)
1. Ato ou efeito de ligar.
(...)
 3. Conexão.
(...)
5. Laço, vínculo, relação entre pessoas.

telepatia
sf (tele1+pato5+ia1)
1. Capacidade que se pretende possuam algumas pessoas de transmitir e receber pensamentos a distância, sem que façam uso dos sentidos naturais.

 




Quem me conhece sabe que adoro escrever.  Quem me conhece um pouquinho mais sabe que ontem foi meu aniversário. Mas quem me conhece mesmo, mesmo, mesmo sem nunca termos tido uma conversa tête-à-tête, é a minha amiga, professora de formação, psicanalista de vocação, Cleonice. E todos os anos o ritual é próprio: ela me presenteia com seu ouro negro - que não é o petróleo, mas a tinta de uma pena, ainda que virtualizada, na forma de um texto - que tanto me é caro e raro. Qualidades da nossa amizade de mais de três anos!

Tenho amigos escritores. Alguns, tímidos, o fazem para catapultar seus sentimentos, presos nas próprias correntes tecidas com sua exagerada autocrítica; outros, mais dinâmicos, para cadenciar os pensamentos que correm livres como crianças num parque. Terceiros, e aqui me incluo, redigem como catarse, um antídoto ao vômito das sensações e ao parto das dores de cabeça causadas pelos movimentos repetitivos do martelar de Zeus na confecção inconsciente de histórias subjetivas abstratas. Mas ela, e somente ela, entre os já raros, escreve compulsoriamente como forma de generosidade. Escreve para o outro, àquele que não vemos, o homem de mil faces. E ainda é uma dobradora de palavras! Estas se dobram, se curvam diante daquela, e dançam conforme sua regência.

Com sua anuência eternizo aqui os pedaços de carinho que ela sabe formar tão magnificamente ao agitar os braços empunhando uma varinha mágica invisível (aos outros). Vaidosamente, ei-los!

2014

“Quantas Patricias cabem numa só Patricia? Ela nasceu em mil novecentos e oitenta e sempre e, aparece, assim, de vez em sempre, nem triste, nem contente, apenas gente, apenas sente. Ela sente tudo e não sente nada. Ela vai do oito ao oitenta, mesmo que esteja calada. Ela é silêncio quando tudo é barulho. Ela é tormenta quando tudo é calmaria. Ela é a calmaria que nasce da tormenta. Em um mundo tão confuso, tão intenso, e tão barulhento, ela nos ensina que a poesia nasce do caos e que ela, bem, ela nasce do que pretender nascer. Feliz aniversário, Patricia.”


2013

Queria que o dia tivesse 27 horas, para que, a cada hora, eu pudesse fazer um pequeno texto sobre uma de suas qualidades. Mas seria difícil escolher apenas 27 qualidades, aí eu escolhi a Patricia inteira. É isso, o que eu gosto de você é a sua inteireza. A sua completude (mesmo que, essencialmente, sejamos seres incompletos) é o que faz com que você seja tão especial, tão querida, tão única. Felicidades, Patricia.


2012

Coragem. Não preciso te desejar mais do que isso, porque você não precisa de mais do que isso para seguir em frente quando julgar necessário e para voltar quantos passos a vida te solicitar.

Coragem para arcar com as escolhas que fizer. Coragem para lidar com quem discordar das suas escolhas. Coragem para desistir quando estiver cansada de olhar sempre a mesma janela e encontrar a paisagem intacta, inerte. Coragem para dar vida à paisagem morta. Coragem para criar outras paisagens. Coragem para existir, porque isso já é complicado demais da conta, uai.

Feliz aniversário, Patricia.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Luz na escuridão



alma
sf (lat anima)
1. Nome que exprime vagamente a causa oculta dos movimentos vitais; princípio, força vital, princípio sensitivo e intelectual, vida.
2. Princípio imaterial da vida, do pensamento e da ação.
4. Substância incorpórea, imaterial, invisível, criada por Deus à sua semelhança; fonte e motor de todos os atos humanos.
5. Essa substância, quando separada do corpo.

reencarnação
sf (re+encarnação)
1. Ato ou efeito de reencarnar.
2. Segundo muitas seitas orientais e segundo o espiritismo, fenômeno em que a alma humana, desligada do corpo pela morte, vai, após tempo mais ou menos longo, alojar-se em outro corpo humano.

fim
sm (lat fine)
1. Termo, conclusão, remate.
2. Extremidade, limite de espaço, extensão ou tempo.
3. Intenção, propósito.


“Ela disse adeus, e chorou,
já sem nenhum sinal de amor.
Ela se vestiu, e se olhou;
sem luxo, mas se perfumou.
Lágrimas por ninguém,
só porque, é triste o fim.
Outro amor se acabou.
Ele quis lhe pedir pra ficar;
de nada ia adiantar.
Quis lhe prometer melhorar,
e quem iria acreditar?”


Abriu os olhos. Breu total. Passos se aproximavam.

- Olá! Finalmente alguém para quebrar o silêncio. Estava enlouquecendo por diversos motivos, entre os quais a solidão e o tédio. Como se chama? De onde vem?

- A solidão é sempre uma questão... Bom, eu? Não me lembro. Minha última memória remete a uma cena grotesca. Estava sozinha num campo aberto a olhar o horizonte quando vejo um ponto se aproximar. O ponto tornou-se reta, de reta a curva elíptica. Quando dei por mim estava cercada por uma víbora enorme, em movimentos circulares ao meu redor, como se estivesse atrás da própria cauda, e disse-me, na língua dos homens, mas de modo sibilante, algo como:

"Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu própria. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira! Queres isto ainda uma vez e inúmeras vezes?"

- Em pânico, pupilas dilatadas, coração ligeiro, cravei as unhas nas palmas das mãos geladas, detive-me a pensar e, num segundo, ou foram dias?, respondi negativamente. Passado o abalo vejo que não há sentido evolutivo em reviver a mesma existência, uma vez que as aflições já terão trazido suas lições e os sabores da vida já não serão novos, e reitero racionalmente a escolha impulsiva. Retornando ao acontecido, uma vez dito o “não” fui enceguecida por uma luz azul cobalto e a terra se abriu, ou fui içada por braços invisíveis, e caí, ou subi, até aqui. Nada pregresso a este acontecimento faz parte do meu repertório. Qual o seu nome? Como você chegou aqui?

- Da última vez eu estava num ambiente gelado, antibiótico fluindo em minhas veias, ouvindo o estertor da morte. Fechei os olhos para piscar e, quando abri, estava tudo escuro. Este escuro. Vivi desde a adolescência entre pés de nhácamo, plantados em casa. Sempre achei a fisiologia das plantas atraente e me sentia poderoso ao conseguir maximizar sua produção com a química das reações, controlando temperatura, luminosidade e nutrientes do solo. Ver uma semente se transformar numa árvore de metro e meio em poucos meses me trazia a sensação divina! Não sei se você sabe, mas nhácamo é uma fruta suculenta com propriedades encantadas, deixada pelo deus Eagger para que amplifiquemos nosso entendimento.

- Conheço o nhácamo, mas não é um fruto proibido? De onde venho cada gota de orvalho sobre as folhas de um pé de nhácamo é a lágrima de uma mãe cujo filho se perdeu entre as cores e sabores desta drupa.

- Não existe nada mais bonito que o som de fortes determinações colidindo. Comer um fruto que é proibido você não acha irresistível? Nesse fruto está escondido o paraíso, o paraíso! Ele conecta as pessoas e traz leveza ao ambiente, enquanto aprofundamo-nos em nós mesmos e naqueles que nos cercam. As conversas mais edificantes que tive foram alternando nhácamo e risadas. A autoconsciência nos livra das demais necessidades. Como vê, ele cobrou seu preço, e peguei-o conscientemente.

- Discordo, porém compreendo... Agora dize-me!: quem é você? Onde estamos? Por que tenho a impressão de conhecê-lo?

- Fui muitos e não sou ninguém. A única coisa que aprendi, desde que cheguei neste lugar, é a efemeridade da vida. Purgatório, Limbo, Umbral, Grande Vertigem, independente do nome estamos em algum lugar e encontramo-nos nele, entre os desistentes e os insistentes, não por acaso. Não existe acaso, embora não me agrade o conceito de destino. Acredito mais numa verdade intermediária, um caminho no meio das pontas, onde encontram os que querem e os que fazem por onde. Àqueles que desperdiçam seus bens mais preciosos, tempo e energia, as extremidades.

- Você realmente não sente a força dos astros? O influxo de sua proximidade ou distanciamento, o desenho das estrelas cujo ligar traça nossos desígnios? Sem identificar a origem da influência vivi suas consequências. Tive uma ligação planetária, certa vez... Agora me lembro... – E centenas de pirilampos apareceram para dançar no céu, deixando ambos os vultos à mostra - Foi irracional e irrefreável! A mais elaborada razão sucumbia ao magnetismo sem foco.

- Creio somente no mérito da chama interior, a enorme força criativa que todos somos dotados. O homem lida imediatamente apenas com as suas próprias representações, os seus próprios sentimentos e movimentos da vontade. As coisas exteriores têm influência sobre ele apenas na medida em que os ocasionam. Se o destino só existe para cegar a realidade, e se é o destino que as estrelas nos dizem, então devemos destruí-las em si. Ouça a melodia das estrelas esmagando. – Enquanto aponta para o céu os agora milhares de pontos luminosos vão se extinguindo como luzes de velas sufocadas por apagadores. – Aproxima-te! Sinta o fogo cuspido pelo meu coração e que corre através das artérias, esquentando meus impulsos e nervos, e ouça as palavras acaloradas que assolam argumentos alheios, coroando-me sempre a vitória, saibam eles ou não.

- Você... Preciso de um Sol para energizar-me, não um fogaréu pra me queimar. A luz da fogueira é quimérica, fugidia. A dança das suas chamas se faz convidativa e, quando chegamos perto de mais, somos captados pelo hipnotismo das labaredas, e estas cobram nossa pele e carne para arder. Entretidos, quando percebemo-nos, voltamos ao carbono, e os danos feitos são irreparáveis. Aos sobreviventes a tez se recompõe, agora como couro, inelástico, marcado como gado com ferro quente. “Vejam lá os incautos, escondendo suas cicatrizes com sorrisos, infelizes!” dirão novamente, enquanto sentem-se elevados. O Sol, entretanto, é possuidor de uma prodigalidade inimaginável! Independente, caminha em todas as direções, de leste a oeste, com seu sorriso cintilante, e dá abraços suficientemente calorosos aos que se expõem; e as plantas ficam maiores para vê-lo passar; e os jacarés sequer movem-se, boquiabertos, diante da sua grandeza. Quando ele atravessa o frio míngua, a escuridão fica menos densa e as dores suportáveis; as doenças do corpo e da mente diminuem, apavoradas, e vão embora!

- Lembrou de mim, então? Recordou que foste a flor mais bonita do meu jardim? Cultivada com carinho e compostagem, gás carbônico e beijinhos em quantidade ideal? Por muito tempo houve o engulho com as nossas presenças, mas aquele livro findou e podemos recomeçar, ou reescrever. Ambiente novo, brisa nova, amor antigo.

- Eu fui apaixonada por você como jamais imaginei ser capaz e nunca duvidei do seu amor, mas hoje não sei se essa paixão foi por mim. Acho que você foi apaixonado pelo amor que acreditou sentir. E eu? Não tenho nada a ver com isso. É uma pena, mas aconteceu assim. Eu tive todos os sonhos com você e hoje isso virou tristeza. É tão misterioso o nascer das lágrimas... Eu não posso salvar aqueles que já se perderam. Só porque duas pessoas se amam não significa que elas devem ficar juntas e, Deus, como te amei!... Non è possibile!

- Mas, mas, mas... Não, não é! Eu nunca machucarei você novamente. Eu vou protegê-la! Lembra quando estivemos no litoral, com o vento trazendo a maresia, e, sobre aquela grande rocha, limite de dois distritos, vimos a lua e o sol juntos? O sol representa a alma, a lua a mente e a pedra o corpo. Estavam todos alinhados conosco. Estamos ligados, jurados, por isso a sensação de familiaridade. Uma pequena onda, gerada por uma pedrinha, um dia pode gerar uma grande onda. We can work it out! Só o tempo dirá se estou certo ou errado e temos todo o tempo do universo.

- A vontade, se não quer, não cede, é como a chama ardente que se eleva com mais força quanto mais se tenta abafá-la. Cedi. Desisti de você. Desisti de tentar. Nos vemos em outra vida. – E sentiu o peso de uma mão em seu ombro direito. Ao olhar para o lado inicialmente viu dois olhos azuis que tomaram o corpo de um senhor com barba, cabelos acinzentados, rosto sereno e roupa clara. Teve a impressão de que uma luz branca brilhava atrás da figura e das vestes do mensageiro, como se viesse através de um véu tênue. Reconfortou-se ao reconhecê-lo – Vamos?! - e, juntos, brilharam até completarem uma constelação.