domingo, 20 de janeiro de 2013

Falta literatura na minha vida.



falta
sf (lat vulg *fallita, de fallere)
(...)
2 Carência, penúria, privação.
3 O fato de não existir.
4 Ausência.

amor
sm (lat amore)
1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso.
(...)
3 Afeição, grande amizade, ligação espiritual.
(...)
5 Benevolência, carinho, simpatia
(...)
7 Desejo sexual
(...)
11 Coisa ou pessoa bonita, preciosa, bem apresentada.



Falta literatura na minha vida. 


Quero embriagar-me de poesia, andar ébria sobre as suas palavras e ficar soluçando citações, minhas ou tuas.
Quero mais, quero poesia falada, poesia cantada, poesia à milanesa, poesia catelliana.
Quero você-poesia, você-poeta, quero você. Você mesmo.

Você inteiro, você às partes, sujeito, predicados, voz ativa, imperativo,
O ímpeto em palavras para que dancemos a métrica.
Quero embebecer-me das tuas frases, em verso ou prosa,
E ter dos teus pensamentos os meus.

Leio-te e redijo cartas de amor; cartas de amor que nunca serão entregues;
Cartas de amor que serão racontadas ao pé do ouvido, sobre juras de amor eterno,
Sob os olhos atentos de Vênus a regar o campo de girassóis bebês.

Ricos, rimamos. Rimos enquanto amamos.
Quero-lhe, ter a tua na minha vida.
Quero literatura na minha vida.

domingo, 16 de outubro de 2011

La vita così com'è

desejo
sm 
1. desiderio.  
2. voglia, volontà. 
(...)
 5. piacere.

preferência
sf 
1. preferenza, predilezione.


Sacolejando numa carruagem cabriolet chegava àquela estância uma patricia, sem pai ou pátria, nobre pela própria natureza. Adentrava àquela vila sem referencial algum, exceto por um estimado amigo, O Coroado, que enviava-lhe, com uma disciplina quase militar, extensas cartas diárias escritas a pena e suor.

Sua chegada na pequena cidade fora notícia, afinal, forasteiros àquela estação eram deveras incomuns, e nEla convergiam todos os olhares, dos mais insignes aos nada opulentos, não por sua beleza, mediana, mas por sua confiança e independência. Não era de bom tom uma mulher andar sozinha por onde quer que fosse, como Ela acostumara-se a fazer, portanto O Coroado tomou-lhe a mão e guiou-a pelos caminhos eminentes locais que Ela conhecia somente pelos longos relatos.

Passado algum tempo, porém, Ela sentia-se fatigada e enfadada, um tanto ou quanto incompleta. Necessitava conhecer o outro lado da Verdade e, em segredo, começou a andar entre os criados. Estes sim eram sortidos e sortudos, com seu estilo de vida munificente e lúbrico; seguiam regras próprias e eram imunes aos estatutos dos deuses e dos anjos, livres na fé, escravos apenas da vontade de homens gigantes, a dita nobreza vigente.

Foi neste magote que Ela, camuflada, enquanto O Coroado dormia e supunha que ela fazia o mesmo sob seu lençol de cetim, conheceu virtuosos homens que inicialmente cortejaram-na, entretanto, depois, aceitaram-na como um dos seus pela reprodução, por parte dEla, do seus comportamentos. Dentre todos um chamava-lhe especialmente a atenção. Seu crânio era um pouco maior que o convencional e seus olhos, fundos como a madrugada, tentavam frustradamente esconder-nos seu prognatismo mandibular. Seus braços faziam-se ligeiramente mais compridos do que o daqueles que conhecia, eram lar de músculos definidíssimos que remetiam a um trabalhador de esforço e valoroso e era deveras hirsuto em membros e tórax. De longe lembrava um Hominoidea, nem alto nem baixo, com marcha própria e de pêlos nigérrimos como o piche, apesar da pele ser da cor da coalhada. Guglielmo era seu nome e do sul seu acento.

De lívida Ela passou a luzente, suas pernas, antes irrequietas, sossegaram e os sorrisos saíam fartos dos seus lábios rosados como bolhas num banho de espuma. O Coroado, suspeitoso, mandou observarem-na e suas escapulidas foram conhecidas e cerceadas. Havia de contentar-se apenas com passeios dentro dos limites de suas terras, que não eram poucas. Numa tarde, ao descer ao cercado dos animais, Ela avistou um vulto conhecido, nunca antes vislumbrado pelas propriedades do Seu Coroado. Era Gugli! Mesmerizada, Ela aproximou-se.

- Benvenuto, semplice contadino.* - e conteve o impulso de correr para abraçá-lo.

*os diálogos, a partir deste, serão traduzidos, para plena compreensão dos leitores.

- Olá, senhora. No que posso lhe ser útil? – disse Gugli com um sorriso no canto da boca, tão peculiar às noites de boemia que partilharam juntos.

- Sela-me um cavalo e flane comigo. Existem muitos bosques e trilhas, sendas e milhas para conhecer. Esta velha terra m’é nova aos olhos e seu povo ainda não é meu povo. Sê meu cicerone e tornemo-nos parte do todo.

- Sim, senhora. Levar-te-ei a veredas onde vossa mercê jamais sonhaste chegar.

Selou-lhe um cavalo, outro a si próprio, ganharam terreno e fizeram desta novidade um hábito. No começo ambos mantinham certa distância, com Gugli montando ligeiramente à sua frente para protegê-la de eventuais riscos. Aos poucos, durante os passeios, suas montarias (e seus olhares de concupiscência) foram aproximando-se até que um e outro, enfim, seguiam às trilhas de mãos dadas e, por diversas vezes, cavalgaram na mesma sela.

Os períodos passavam e Ela, cada vez mais envolta neste sentimento extasiante, desejava despender mais e mais tempo com seu consorte. Procurava-o sempre entre as baias, onde Gugli constantemente fazia-se presente, descamisado, nunca imberbe, escovando os cavalos ou trocando o feno sujo de estrume por outro de recém fenação. Este recebia-a sempre sorrindo, de braços abertos, pronto a sufocá-la contra seu peito.

Numa das tardes de primavera Ela novamente esgueirava-se para dentro da cavalariça, porém não foi recepcionada com o rotineiro beijo e abraço do seu amásio. Este ajudara a transportar para um dos boxes uma antiga, entretanto ainda nova, égua que pertencera à fazenda dO Coroado e fora readquirida num leilão. Gugli encontrava-se no compartimento da Velhinha, a égua, a escová-la com tanto carinho e dedicação que sequer reparara em Ela ou cedia-lhe muito de sua atenção. A partir daquele dia o peão seria visto somente na companhia da égua Velhinha, a pé ou a galope, estáticos ou passeando pelos pastos. Por vezes Ela deparava-se com Gugli amando Velhinha de modo poético, outras de modo carnal, e retrogredia enojada.

Num dos raros momentos em que Ela encontrou o cavaleiro sem a companhia de sua besta, perguntou-lhe:

- Ó, Primitivo homem, por que escolheste ela em detrimento de mim?  Tem esta égua alguma graça que eu não possua?

- Minha patrícia senhora, adoro tua companhia como a de uma irmã e regozijo-me contigo, mas vossa mercê não possui as ancas de parideira que tanto aprecio, ou a crina macia e sempre escovada da minha Velhinha. Nesta posso cavalgar como se fosse o inverso, sempre que sentir necessidades, porque ela não nega nada a mim, treinada que é nas artes animalescas.Eventualmente, quando sinto-me tentado à rudeza do coito, seguro suas crinas, um tanto rubras e perfumadas como gerânios vermelhos, e ponho-lhe com vontade, sem que esta refute ou reclame, pelo contrário.

- Compreendo suas necessidades de varão, Gugli, mas a égua, Velhinha, lê poesias para ti, como eu faço? Ela decifra-te o mistério das estrelas e conta histórias da época em que havia mais de um Deus, e que eles moravam no Olimpo e andavam entre os homens? Ela, a meu exemplo, te faz entender como agem os seres humanos e suas intenções ocultas, e o que eles dizem sem abrir a boca ou intentam o impronunciável somente com o olhar?

- Não, minha dama, a predileta dentre todas as patricias. Mas com a Velhinha posso passar o dia em sua cocheira, deitado ao seu lado, no feno, enrolando meus dedos em sua crina e proferindo amenidades enquanto ela me olha, silente e indolente, a concordar com tudo com seu sorriso universal. Não articula mais que dois ou três relinchos e, quando o faz, fa-lo em um tom baixo e suave, logo move sua cabeça e, com o olor de sua crina, injeta em minhas narinas mais de seu feromônio. Pouco resisto e já vejo-me dentro dela novamente.

- Acha-a de mais fino trato que eu, Gugli?

- Novamente a resposta é negativa, minha querida. Velhinha apenas é de mais fácil trato que vossa mercê. Ela contenta-se com sua mistura de feno, grama e leguminosas, as quais eu partilho, por condescendência. Suas ferraduras são de fácil forja e troco-as enquanto ela fica paradinha, como uma donzela a experimentar seu sapatinho de cristal. Inclusive tenho dois pares delas sempre comigo, caso haja necessidades ou imprevistos. Todo arreio lhe cai bem e, por mais singelo que seja, a cada trote e sacudidela da cauda – lançando mais feromônios no ar - torna-se mais fêmea aos meus olhos.

- Está certo... Sua escolha está feita, e seu destino traçado a trinta. Passar bem! – e saiu a passos largos para não desabar em lágrimas na frente do seu amado.

Então, Guglielmo, tempos depois, inesperadamente, numa queda foi ao chão, e a égua, danada égua, correu das suas rédeas e sela para o mundo selvagem dos cavalos garanhões. Gugli levantou-se, espanou as gramíneas do seu corpo, lavou seus cortes no rio de Heráclito, entretanto suas precisões fizeram-no trocar Velhinha por uma égua baia, das ordinárias a mais. E o padrão manteve-se...

E Ela? Continua a contar estrelas e histórias... Loba solitária que é.

sábado, 15 de outubro de 2011

Ah, se eu fosse um padre...

problema
sm (gr próblema)
1. Questão levantada para inquirição, consideração, discussão, decisão ou solução
(...)
5. Tema cuja solução ou decisão requer considerável meditação ou habilidade.
6. Qualquer assunto ou questão que envolve dúvida, incerteza ou dificuldade.

poema
sm (gr poíema)
1. Obra em verso.
2. Composição poética do gênero épico, mais ou menos extensa e com enredo.
3. Epopéia.
4. Obra em prosa em que há ficção e estilo poético.
5. Assunto ou coisa digna de ser cantada em verso.

adoçar
(a1+doce+ar2) vtd
1. Tornar doce: Adoçar o fel amargo da existência.
(...)
3. Mitigar o sofrimento de: A música adoça a tristeza. Adoçar alguém com presentes.
4. Atenuar o efeito de: Adoçar a lei, as fadigas. Adoçou a canseira com um banho.
5. Abrandar, suavizar: Adoçar o caráter, o natural.


Um dos axiomas da vida é: “todo mundo tem problemas”. Comigo não seria diferente, não é mesmo? O maior e mais torturante deles, no momento, relaciona-se à Universidade e a proximidade do seu término. Não entrarei em detalhes aqui, porque, né, não convém, mas procurei uma querida professora, que já me socorrera numa crise pregressa, para aconselhar-me sobre como proceder diante da realidade ululante. Conversamos por aproximadamente duas horas, nas quais me emocionei muito, trocamos confidências, abraçamo-nos e expurguei todos os meus demônios interiores. Inclusive citei meu gosto pela escrita amadora e a existência deste blog, o que fez os olhos da Professora brilharem.

Durante toda a conversa, que aconteceu no horário de almoço dos professores, supus que estávamos sozinhas numa das salinhas do Departamento, cujas paredes são vazadas. Ledo e feliz engano! Assim que despedi-me da professora, que remira minhas mazelas, e entrei no corredor do quarto andar do Hospital Universitário, reparei com a visão periférica que alguém tentava me alcançar e me chamava pelo nome.

-Patricia... Patricia...
-Oi... Professor?!
- Minha querida, nunca desista dos seus sonhos. Os problemas vem e vão e devemos ser capazes de enfrentá-los. Sê feliz! Continue escrevendo! Receba este poema e uma paçoca para adoçar a vida.

E ele entregou-me uma poesia linda (abaixo), em folha impressa, com pequenos rasgos, com marcas de fitas adesivas tiradas às pressas. Provavelmente a trova estava pregada na parede da sua sala por um tempo razoável, o que eleva ainda mais o valor simbólico do presente e da atitude. Obrigada, Professor Porphirio José Soares Filho, por ser um agente transformador positivo das pequenas cabeças dos estudantes universitários. Você faz a diferença!

Apreciem:


Se eu fosse um padre
Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

sábado, 4 de junho de 2011

Mentali Vacuum

vácuo
adj (lat vacuu)
1. Que não está ocupado por coisa alguma; que nada contém; vazio, despejado.
(...)
4. O espaço de tempo em que alguém está desocupado.
5. O aborrecimento, o enfado que, para o espírito, resulta dessa fastidiosa ociosidade.
6. Sentimento penoso de privação.
7. Privação determinada pela ausência.

amizade
sf (lat amicitate)
1. Sentimento de amigo; afeto que liga as pessoas.
2. Reciprocidade de afeto.
3. Benevolência.
4. Amor.

completude
sf (completo+ude)
1. Qualidade ou estado do que é completo.

Como minha mente anda um vácuo intelectivo nos últimos meses, vou postar aqui um texto adaptado de uma resposta minha a uma entrevista feita pelo meu amigo Luis Fernando 'Éomer' Martins num tópico do fórum Valinor. Segue:



"Defina amizade"

A meu ver a amizade tem que ter como fundamento a boa índole de ambas as partes. Não precisa ser um homem de bem pleno (já que existem pouquíssimas coisas que são plenas em sua natureza), entretanto, àquele que ele julga amigo, deve-se sempre ansiar o bem, o bom, ser franco sem ser ácido, ser um ouvinte exemplar... Amizade e impertinência são antagônicas excludentes!

O amigo puro é aquele que tem gostos simples e parecidos (e, para serem mais e mais parecidos, quanto mais simples melhor) com outrem, cuja semelhança seja ao ponto de não saber se, ao olhar ao confrade, vê uma imagem especular de si, ou se ele próprio é um reflexo espelhado do outro. Isso conserva a fidelidade! Aquele que não tem o mesmo gosto, nem os mesmos sentimentos nossos, não pode ser um amigo certo e constante, e uma alma dissimulada e tortuosa não pode ser fiel.

Não há verdadeira amizade sem interseção! O real companheiro é aquele que se vê tanto n’outro que seria capaz de sacrificar o seu júbilo em prol do camarada e, mesmo assim, realizar-se quase em sua plenitude com a conquista alheia. O que nos agrada não é a utilidade oferecida pelo nosso amigo, mas sim o carinho desse amigo; e tudo o que nos for oferecido por ele, nos será agradável, contanto que transpareça a dedicação.

Amigos são gêmeos siameses que dividem mente e coração, vitória e decepção. São aqueles que não expõem o outro ao ridículo, e defendem sua honra como o fariam com a própria, ao custo de não-amizades, ou quase-confrades. Um torna a vida do outro mais ‘prosperável’, suas dores mais suportáveis, seus ânimos mais acesos... É aquele catalisador do Sol, do seu, do céu.

Companheiros que se escolhem são filhos descompromissados da Natureza, onde todo o feito é verdadeiro e fruto da vontade. É uma louvável grandeza de carinho! trocada em embrulho de veludo, macio ao toque, belíssimo ao enfoque. Ela sobrevive, não sem escoriações, não sem cicatrizações, aos torvelinhos de desventuras advindos do tempo ou da má sorte.

Àquele honrado irmão de alma, cujo destino (e acreditem que ele existe!, o ‘acaso’ é tão lenda quanto o saci-pererê) brincou de romper o contato, devemos a ética do evitar falácias. Não é digno da nossa parte colocar como foco do ódio aquele que outrora já esteve na nossa mais alta hierarquia da estima, salvo exceções, que se houverem, desqualificam toda a essência da amizade pregressa. Honrá-los é um exercício de retidão e homenagem histórica.

O que eu disse é sobre amigo ou amor? Ou os dois? Ou o amigo é amigo do amor?, e, portanto, são indissociáveis?


P.S.: Resposta fortemente influenciada pelo livro "Diálogo sobre a Amizade.", do filósofo e escritor Marcus Tullius Cicero, que eu havia lido pouco tempo antes.

domingo, 10 de abril de 2011

Nódoa sobre o carpete

nódoa
sf (lat notula)
1. Sinal deixado por um corpo ou substância que suja; mancha.
2. Med Mancha na pele, deixada por uma contusão; equimose.
4. Deslustre.
5. Afronta, ignomínia.

insônia
sf (lat insomnia)
1. Falta de sono.
2. Dificuldade de dormir; vigília; anipnia.
Var: insonolência.



E, naquela noite, ninguém ouviu o disparo fatal.

Nada havia sobre aquela pele alva além dos costumeiros hematomas. Perdera outra luta à Insômnia, a Maldita, um demônio familiar desde os tempos em que não havia nenhum pinheiro velho na Terra. Fazia parte de uma sucessão de bravos guerreiros fadados ao insucesso; toda noite era um elixir e um desespero, o desabrochar e o desfalecer, amável e terrível na presença de sua boca muda e seus olhos sempre fechados: assim instaurava-se o confronto entre a coruja de igreja e o roedor indefeso. Insômnia, a Cruel, cravava-lhe suas garras nas pálpebras do outro, impedindo o seu fechar, e sussurrava-lhe impropérios e inverdades que digeriam o cérebro de sua vítima notívaga, ou ao menos seu naco reservado ao sono. Deste modo nosso caro wistar acordava, morto, do sono não dormido, da batalha nunca ganha àquela que jamais quis vencer.

O que estou fazendo aqui? O que estou fazendo comigo? Nunca soube as devidas respostas para estas perguntas que não deveriam ter sido respondidas. Elas eram ratoeiras postas (e propostas!) pela Insômnia, a Sublevadora, sob o tentador disfarce da reflexão catártica que aquela ratazana, magra de doença, tanto gostava de pensar dominar. Ora essa, senhores, e não é sabido desde sempre que animais não pensam, agem? Como ninguém o avisou disto ele acreditou dominar as palavras, sem imaginar que a cada vez que pegava a caneta para escrever seus pensamentos injetava em si uma pequena dose de cicuta, e que a tinta que alimentava seus cadernos filosóficos era feita com seu próprio sangue, azul como sua nobre ascendência maldita.

Como a todos os filhos bastardos da Noite, a Estéril, só são dadas duas opções, ele ficou com a mais fácil. Sua tez era branca como o céu claro, em evidente oposição à negritude da Noite, a Nigérrima, numa forma infrutífera de lutar contra a realidade ululante prestes a engolir-lhe. A cor de sua pele era a manifestação mais grosseira e visceral de seu inconformismo com sua natureza; sofria diante da Lua, a Tetrafásica, e preteria seu pai, o Sol, o Cara Amarela, pois se não fora sequer acostumado ao calor humano, imagine ao celestial. Àqueles conformados com sua maternidade restava-lhes a pele, pêlo ou pena escura, e ou eram cegos – de paixão – ou olhavam à sua mãe, a Quarta, com olhos arregalados de pupilas dilatadas, aplaudindo silenciosamente antes de aplacar seu desejo de matar, desejo este possuído por nosso sofredor roedor.

Quando a Lua chegou, naquela noite, não estava escoltada pelas Estrelas, as Infinitas, e isto só poderia significar que mais cedo previra o desastre iminente e não queria testemunhas. Seria difícil demais para o nosso homem, feito rato branco pela vida, mostrar-se forte e decidido ao menos uma vez diante de vários seres que, na falta de luz própria, refletiam a dos outros. Ele era opaco, ou suas lentes é que estavam embaçadas desde sempre (e até nunca mais!)? Ciente disso Lua, a Madrasta, cobriu-se de nuvens e espiou por uma fresta a cena que se seguia.

Diante do único raio branco e frio que atravessava a janela aberta de sua sala (e este era o olhar do brilho secundário dAquela que Não Era Mãe), Pavlvs terminou sua refeição favorita, olhou-se no espelho uma última vez, assinou sua carta de despedida à única pessoa que – de acordo com o próprio e sua visão torpe – importava-se com ele, engoliu metade do cano da arma de fogo que estivera ao seu lado durante todo o ritual e puxou o gatilho. TEK! A primeira bala recusou seu destino. Tomara que a segunda apiede-se de mim. Antes de completar o pensamento caiu morto no tapete da sala... Foi-se tão só quanto chegou.

E, naquela noite, ninguém ouviu o disparo fatal.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A santa e a súcubo

santa
[Fem. de santo.]
Substantivo feminino.
1. Mulher canonizada:
2. Fig. Mulher virtuosa, bondosa, inocente.

súcubo
[Do lat. med. succubu, ?o que se deita por debaixo de outro? (< lat. tard. succuba, com infl. de incubus.] (...)
Substantivo masculino.
3. Demônio feminino que, segundo velha crença popular, vem pela noite copular com um homem, perturbando-lhe o sono e causando-lhe pesadelos.


Quando o sol bate em sua face, sua nívea e cândida face, e percorre sua pele de bebê que, de tão imaculada, retrai-se ao menor toque ígneo da claridade, Santina desperta, princesa e primeva. Lava-se, então, da polução noturna e esfrega-se com veemência sem olhar o seu sexo, parte inadmissível de si. Limpa e catártica veste-se com moderação, perfuma-se levemente e parte para o ofício, cabeça abaixada, esquivando o seu olhar do jugo alheio. Cruza senhoras e suas crianças, homens com olhar de fome, vigas, vidas, idas e vindas, até chegar ao trabalho.

Se galanteada pelo seu colega de serviço, moreno, queimado pelo sol que lhe fere, de sorriso branco, nada brando, a porta de entrada para aquela boca que já devorara muitas mulheres, Santina fica acanhada, e sua pele carmesim. Ela é pálida, contudo lamenta não ser diáfana.

Um gole de elixir e transmuta-se em deidade; Cleo é musa que, ao andar pela passarela, inspira o cio e a sede nos circundantes, homens ou mulheres. Cada movimento seu é o bailado de galhos de uma cerejeira com a brisa sudoeste, que aflam de modo arrítmico e magnetizante... É o convite para praticarem, a sós, a dança da vida, comutarem libidos e fluidos, respirarem um o ar que sai das narinas d’outro.

Cleo ignora as forças da gravidade, as leis da flexibilidade, ou seriam estas que curvar-se-iam aos seus portentos? Uma vez sob sua mira nada escapa-lhe ao ataque, preciso e cruel, com garras de fera pintadas de sangue, grunhidos felinos, chamados só antes ouvidos no baixo meretrício... Sua vida é sorvida pelos beiços carnudos de Cleo enquanto todos os seus desejos tomam forma e invadem a fôrma, friccionando-se como o arco às cerdas de um violino voluptuoso. E àqueles, felizes escolhidos para morrer de amor, só resta-lhes a rendição, e perecem de olhos abertos, incrédulos, extenuados.

Cleo lambe os beiços, inspira o olor orgástico e admira-se diante do espelho, corpo cheio de curvas, como têm também seus cabelos doirados. Veste-se com o essencial e ruma para casa, ordenando ao taxista com seu hálito de pecado. Deita-se, então, barulhenta, para acordar Santina. E o hábito refaz-se.

sábado, 22 de maio de 2010

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.

viver
[Do lat. vivere.]
Verbo intransitivo.
1.Ter vida; estar com vida; existir:
2.Perdurar, subsistir, existir; durar:
3.Passar à posteridade; perpetuar-se:
4.Gozar a vida, sabendo aproveitá-la:

sofrer
[Do lat. *sufferere, por sufferre.]
Verbo transitivo direto.
1.Ser atormentado, afligido por; padecer:
2.Tolerar, suportar, aguentar:
4.Ser vítima de, passar por, experimentar (coisa desagradável ou danosa):
Verbo intransitivo.
6.Sentir dor física ou moral:
8.Padecer com paciência.
Verbo pronominal.
11.Conter-se, reprimir-se, sofrear-se.


“Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tanto anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes — aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.”
(O Lobo da Estepe - Herman Hesse, página 34)


Ontem, durante o almoço, conversando sinceramente com uma amiga queridíssima, entretanto pouco presente no meu atual cotidiano, cheguei à conclusão de que queria ser uma pedra. Simples assim, uma pedra. Não um busto de alguém notório em pedra polida, nem uma pederneira que seria o gatilho para uma noite clara e confortavelmente morna àqueles perdidos na selva de si mesmos, muito menos uma pedra preciosa, ou a filosofal, com sua feitiçaria e beleza sem precedentes.

Eu queria ser uma pedra, e levar a vida que as pedras levam. Elas é que são felizes. Elas é que sabem viver. Os penedos não só existem como resistem bravamente a esta vida de malogros e flagelos, uma desdita sem fim cujas imperfeições estão mascaradas sob o pó do utópico final feliz. Poderia você afirmar, diante do deus que acredita, sem ter remorso ou soar falso, que é verdadeiramente feliz? Responderia você de modo afirmativo e imediato ao demônio, referido por Nietzsche em A Gaia Ciência, que oferecer-te-ia a lei do Eterno Retorno?

Diante do enigma da existência, um lugar seguro para se viver pode ser... Lugar nenhum. Utopia quer dizer “não-lugar”, um sonho que alimenta a esperança do homem por uma vida em que reina agonia e aparente felicidade em estado alternado como são salteados também as cores de um tabuleiro de xadrez. Eis o cheque-mate que vos faço: sonhar com o impossível é um sonho que vale a pena? Melhor viver o ideal utópico ou a realidade trágica?


Queria ser uma pedra e poder esquivar-me do mal estar que se grassa na civilização e nos é o mais déspota estadista. O sofrimento não acontece em você, não entra por uma brecha da sua alma. Ele sempre esteve ali! Ele faz parte do seu espírito, como ser vivente e inteligente. Nossa psique sofre porque sabe mais do que deve, mas nunca saberá tudo o que precisa. Somos deuses fadados ao eterno martírio por estarmos amarrados a um corpo em constante putrefação desde o segundo em que, ao nascer, inspiramos o oxigênio, vital e tóxico, nosso primeiro paradoxo, e temos como o mais rudimentar dos sons o choro, já pelo desgosto da vida. Existe, de alguma maneira, a dissociação entre viver e o sofrer? Vale a pena você lutar contra o destino, ainda que, no final, você seja (e será!) derrotado por isso?

A única maneira de ser feliz, creio, é viver sem grandes ilusões, como fazem as britas, que nada mais são ou querem ser do que pedras lascadas pela vida e para os viventes, e tocam sua existência aplástica em tons castanhos e cinzas como são estranhos e cinzas os restos mortais do nosso couro que reveste o grande pesar interior. E quando, não muito distante da data de hoje, cansar de viver, simplesmente deixaria de resistir e viraria um punhado de areia a viajar na garupa do vento e a entrar nos olhos daqueles desavisados que olham para o sol e querem ver mais das verdades de Galileu e de Deus. E estes, antes de virar sílica, agradecer-me-ão por cegar-lhes à realidade e apresentar-lhes o indulto e a desgraça de ser uma rocha.

Sabe qual meu maior medo? Viver eternamente.