quinta-feira, 13 de março de 2014

Duas vezes o dois


estrela
Substantivo feminino
[Do lat Stella]
1. Astr Astro que tem luz própria, cintilante, e é da mesma natureza do Sol, parecendo sempre fixo no firmamento.
2. Qualquer astro.
3. Destino, sorte.
(...)
5. Pessoa a quem se quer muito.


ósculo
Substantivo masculino
[Do lat osculu]
1. O mesmo que beijo.
2. Beijo de paz e amizade.



Bom dia, Beija-flor!

Escrevo esta carta para não ser lida por ti, com tinta invisível (só os que me amam conseguem lê-la!) e pena própria, que não vôo mais.

Sabe o que é, Beija-flor? Os verbos insistem na inconstância e o que “é” já “foi”, certamente, entretanto vez ou outra acorda hora como “será”, hora “seria”, e quando peço por “fôssemos” ele me responde com “formos”. Vá para rua! Vá para fora!, mas, gozador, o verbo pega o “fora”, muda a entonação e veste de “seja”, imperativo, e ri enquanto zango-me, e diz que do “ser” ao “saber” só faltam duas letras que insisto imaginar. Justo eu, ora essa, que sequer consigo reproduzir o Abaporu em traços infantis ou criar um conto de duas laudas.

Os lugares também estão de zombaria comigo, acredita? Os que fomos juntos perguntam-me de ti e questionam o motivo das minhas mãos vazias; os que vou sozinha vêem sua sombra na minha e comentam, desinteressadamente, sobre um casal que certa vez foi feliz e assim seria se... Não os deixo findar e saio, Beija-flor, porque eles não entendem que água não fura pedra, o  sol que dá vida também queima e forças iguais, mas opostas, se anulam. Descobri, entretanto, que a cessação não é permanente, visto esta carta, que insiste em se escrever.

Ah, Beija-flor, a Terra desgirou e girassol agora segue a Lua, gato foi visto ladrando e Newton caiu na cabeça da maçã. A única coisa que roda em sentido horário, e bate junto com o relógio da igreja matriz, é meu coração, mas ele  deu para carrear sangue branco, leitoso, que as cores foram embora contigo, gota a gota, num óstio que não cicatriza. Engraçado, né? Anotarei aqui um apontamento sobre ir ao médico.

Ah, ia esquecendo-me! Espalhou-se na praça: as estrelas contaram para as águas, que contaram para os peixes, que contaram para os pássaros, que cantaram para mim: duas constelações novas se entrelaçaram, a Figa e a Fuga, astros menores. E enquanto aquela ascendia fulgurante esta perdia terreno e planetas, e o tempo não era bom com ela. Nem com a primeira, se quer saber, porque sua nebulosa, baseada em esperança, era um gato de Schrödinger e estava viva e morta. Em prol da sua concretude Andrômeda ofereceu-se em sacrifício, Sagitário dispôs sua seta e até a discreta Antares opinou que, então, na ausência de um consenso, melhor era tudo se acabar. Nada disso adianta, Beija-flor! Antares está certa, mas, ah, se fosse fácil assim... Oxalá Astrologia fosse Matemática!

Relendo-me agora não tenho mais certeza sobre a invisibilidade desta epístola. Ou seria este meu desejo? Duas vezes o dois é vinte e dois ou fevereiro? Não sei, e para não confundir-me além da sanidade e ir a galope à psicose poupo-me a internação na Casa Verde de Itaguaí e findo por aqui. Minhas últimas palavras para ti, pelo menos por hoje, ou esta hora, certamente nesta carta, ei-las:

“Parabéns, meu amor!”

Ósculos!

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Eu escolhi ficar!



escolher
[Do lat. Excolligere]
1. Separar segundo qualidade, tamanho, cor etc.; selecionar, classificar.
2. Separar impurezas ou produto de má qualidade de.
3. Dar preferência a, entre coisas da mesma espécie: Escolher um vestido.
4. Eleger, nomear:
5. Optar

ficar
[Do lat vulg *figicare, freq de figere]
1. Conservar-se em algum lugar; estacionar.
2. Permanecer em tal ou qual situação ou disposição de espírito
3. Não dar mais um passo; deter-se
4. Estar situado


Eu escolhi ficar!



“É abrindo a gaiola que o canário vê que não quer sair”


Olha, nunca fui de fugir da raia. Pelo contrário: com raras exceções (a maioria amorosa), sempre me joguei em tudo na vida. Acredito piamente que o que tem que ser feito tem que ser feito, independente da minha vontade, e sempre que tentei escapar dessas situações fui pega pelos ombros pelo Desígnio e colocada novamente na trilha.  

Aprendi à força o “amor fati”, que significa, em latim, “amor ao fado/destino”, e que de um caminho que é nosso não temos subterfúgio. Obviamente poucas das nossas sendas são estas rijas, e existe o livre arbítrio para a imensa maioria das estradas que marchamos. Resumindo: acredito que, se chegarmos a uma bifurcação, podemos escolher livremente entre ir pela direita ou pela esquerda, mas se tivermos, por algum motivo divino, kármico, evolutivo, ou nenhum desses, que ir pela esquerda, não adianta fugirmos para a direita que sempre haverá uma viela, volta, atalho ou placa enorme colocando-nos à esquerda para que passemos invariavelmente por certas situações. Minha vida tem seguido esta regra, à risca, por tempo demais para que eu acredite em casualidade ou sorte.

Ao ser aprovada, contra as minhas expectativas, num suado concurso de residência médica em São Paulo, me encontrei num dilema. Já me mudei inúmeras vezes, sem grandes receios, de cidade, de casa, de decisões, de status de relacionamento, de universidade, de planos para o futuro, de gostos pessoais... Mas desta vez senti que não deveria. Não foi um pressentimento celestial; não ouvi a voz de Deus ou algo do tipo, a escolha foi bem racional, inclusive, e um tanto intuitiva. Os fati anteriores foram muito mais inexplicáveis, contundentes e irrecusáveis, o que torna esta opção apenas uma oportunidade, uma reflexão.

Apesar de me sentir um tanto solitária, caseirinha, eventualmente ter meus dias melancólicos, estar a mais de mil quilômetros do meu núcleo familiar primário e vez ou outra molhar o travesseiro com lágrimas e saudade... Eu escolhi ficar! Ficar para ver dar certo no Rio de Janeiro, onde estou há sete anos; ficar para estreitar meus laços de amizade, crescer como pessoa e mulher, e aqui arraigar minha vida; ficar para a informalidade e benevolência guanabarinas, raridades no meu estado de origem; ficar para ter como quintal a praia e perfume a maresia, por menos que faça usufruto nos dias escaldantes. Ficar, afinal, por opção.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Mulher rendera



renda
Substantivo feminino
1. Obra de malha feita com fio de linha, seda, ouro ou prata, apresentando desenhos mais ou menos caprichosos, que serve para guarnecer peças de vestuário, roupas de cama

alquimia
Substantivo feminino
[Do ár al-kîmiyâ, do gr khymeía, mistura de líquidos]
1. Química da Idade Média.
2. Arte que procurava descobrir a pedra filosofal, com que transformariam em ouro outras substâncias, e a panaceia universal.

eterno
Adjetivo
[Do lat aeternu]
1. Que não tem princípio nem fim.
2. Que teve princípio, mas não terá fim.
3. De duração indefinida.
4. Que se faz ou se repete amiúde.
5. Imortalizado, célebre


“Olê muié rendera
Olê muié rendá
Tu me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a namorá”


Oculta sob pedras, tijolos e temores, onde o deserto, o mar e o céu dão as mãos, estava uma fidalga de tez lívida, cabelos fulvos e mãos talentosas. Sua virtude era a criação, e com os dedos, que bailavam, tecia e bordava com tamanha delicadeza que as próprias ninfas, dos bosques adjacentes, se apoiavam sobre os cotovelos nas janelas de suas torres para vê-la coser. Tudo que findava ganhava vida. As estrelas das suas bandeiras pareciam colhidas da noite, os cavalos dos seus brasões relinchavam, seus tapetes eram os mais felpudos e suas rendas as mais firmes e leves já experimentadas. Diziam ter aprendido com as Moiras; os mais ousados, ser filha d’alguma; os insanos, ser uma delas.

Em seu tempo livre tinha apreço por passear nas brenhas, onde conversava com sátiros e mênades e banhava-se no rio de Heráclito. Certo dia, como por uma peça, o Vento balançou galhos e fê-la vista, semi vestida, aos olhos de um jovem alquimista que ali estava à procura de ingredientes. Embasbacado – uau! – aproximou-se, ofertando-lhe a panacéia. Beberam dela. Beberam de si mesmos. Durante a alvorada murmurou-lhe um encantamento e viu seus olhos cerrando-se mais. Partiu vendo os cabelos dele, negros como as trevas, que davam lugar à coroa de Hélio, serem trançados pelos dedos do mesmo Vento pândego que promovera o encontro.

Na manhã seguinte, enquanto sua roca girava, um bem-te-vi trilou-lhe que fosse à janela. Do alto da torre mais alta viu uma pequena nuvem de poeira; forçou os olhos e conseguiu vislumbrar não só um cavalo, como seu cavaleiro, o alquimista. Segura de sua intatilidade voltou a fiar. Seu castelo era cercado por baluartes, casamatas, barbaças, cadafalsos, fossos e pontes levadiças. Seus portões eram grossos, maciços e em suas muralhas haviam fenestras para o disparo de flechas. Apesar de toda tentativa de aproximação ser rechaçada, o cerco foi montado.

Passaram-se dois meses – ou seriam anos? – e cada empecilho era vencido. O alquimista entendia de ilusões e manejava bem o fogo; cozia poções e porções, curava-se dos ferimentos como que por bruxaria, e era um mestre estrategista. Por vezes ela achou que vira mais de um homem tentando furar o bloqueio e questionou-se sobre a veracidade do mito dos homúnculos. Aberto o último portal por um aríete invisível, feito de perseverança e cádmio, encontraram-se no enorme pátio, ela rendida, ele com um girassol na mão.

Por um período, ou dois, foram felizes juntos. Ela era vista assoviando canções que ainda nem existiam, num radiar que fazia ciúme às filhas bastardas do Sol, enquanto as flores do seu jardim nasciam com mais pétalas e faziam pequenas reverências quando ela passava. Nesta temporada seus feitos tornaram-se ainda mais grandiosos e deles fulgurava uma luz sobre-humana. Até os animais ficaram mais férteis e muitos deles aprenderam, da língua dos homens, palavras belas para bendizê-la.

Entrementes, um dia a brisa soprou gelada e os sorrisos fugiam como animais de uma queimada. Algo funesto crescia no alquimista, e ele tomava seu xarope com mais freqüência, e escondia as ervas com que fazia supostos emplastros, e dizia caçar quando ia à floresta procurar cogumelos para entibiar-se. Suas rendas, percebeu, estavam frágeis e sua roca quebrou; confundia-se nas tranças e seus dedos ficaram abobalhados. Freqüentemente esquecia cosidos usuais e, sem saber o pretexto, matava a sede com lágrimas próprias. As mênades riam dela, enquanto as ninfas pediam intervenção divina.

Certo dia recebeu de um anão itinerante, com quem comerciara dois tapetes e algumas malhas, um anel forjado com maestria que possuía como solitário uma pedra deveras incomum. Naquela tarde, ao conversar com seu consorte em seu aposento, no topo da torre mais alta, reparou, por trás do sotaque estrangeiro e da voz, agora pastosa, que ele já não falava mais com a fluência de antes. Sua voz, melodiosa e doce, que fazia com que tudo que fosse dito parecesse sábio e razoável, tornara-se rude e agressiva, e suas palavras, mesmo que graciosas, já não faziam sentido.

Seus olhos, midriáticos, brilhavam como uma chama verde lodosa; ela olhou muito fundo – o que foi sua ruína - e encontrou muita ganância somada a intenções dúbias. Temeu e tremeu. Ao tomá-la pela mão o alquimista reconheceu o antaglifo, pedra cuja faculdade era a de fazer seu portador não se impressionar com nada, e percebeu que a fascinação estava quebrada. Nenhuma de suas ilusões poderia opor-se ao fim ululante. Aquela noite seria o marco final daquela Era.

Ela ouvira falar na chama verde, a chama eterna, desgraça viva, consciente e determinada de seus objetivos, que só acaba quando consome tudo que a cerca, tendo como vítima final seu hospedeiro. Era um traço inato, não havia subterfúgio! Desesperançada, aproveitou um segundo de oportunidade, desvencilhou-se do alquímico e jogou-se da janela da torre. Não houve estampido. No lugar ouviu-se o bater de asas e uma ave com plumagem amadeirada foi vista pairando em direção à floresta. Enquanto planava, piava “foi... foi... foi...”. As ninfas foram ouvidas! Assim nasceu o urutau.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Recordar é sofrer

memória
[Do lat memoria]
 Substantivo feminino 
1. Faculdade de conservar ou readquirir ideias ou imagens.  
2. Lembrança, reminiscência

sofrer
[Do lat sufferere, corr de sufferre]
Verbo transitivo indireto e verbo intransitivo
1. Padecer dores físicas ou morais: 
2. Padecer com paciência
Verbo transitivo direto
3. Aguentar, suportar, tolerar
4. Experimentar, receber: 


Há quase um ano sem passar aqui como escritora, apenas curio’saudosa, refaço o caminho para rememorar meus dedos do papel que lhos cabe.

Depois de um tempo de estiagem achei que o poço havia secado; temi que tivesse, enfim, acabado de tomar completamente a sopa de letrinhas ao invés de brincar perpetuamente com estas com os indicadores. Minha folha de papel continuava terrivelmente branca enquanto a mão pendia para o lado, inerte, com os dedos para cima, aranha defunta que findara sua confecção. Acabara o combustível, deixando-me na ignota estrada do silêncio? Onde estavam as pequenezas sarapintadas que via com olhos molhados?

Escrevo hoje para molhar os lábios ressequidos, aguar a semente do que antes fora um cedro-rosa, esculpido ao toco.  Redijo para cortar-me com o papel e fazer escorrer pelo polegar, que firma a caneta, o sangue escarlate que serve de tinta e lampejo. Hoje as palavras são d’outro, as próximas (e aos próximos) as minhas. Deixo-vos um poema cruento.


 Essa noite

Pablo Neruda
 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


domingo, 20 de janeiro de 2013

Falta literatura na minha vida.



falta
sf (lat vulg *fallita, de fallere)
(...)
2 Carência, penúria, privação.
3 O fato de não existir.
4 Ausência.

amor
sm (lat amore)
1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso.
(...)
3 Afeição, grande amizade, ligação espiritual.
(...)
5 Benevolência, carinho, simpatia
(...)
7 Desejo sexual
(...)
11 Coisa ou pessoa bonita, preciosa, bem apresentada.



Falta literatura na minha vida. 


Quero embriagar-me de poesia, andar ébria sobre as suas palavras e ficar soluçando citações, minhas ou tuas.
Quero mais, quero poesia falada, poesia cantada, poesia à milanesa, poesia catelliana.
Quero você-poesia, você-poeta, quero você. Você mesmo.

Você inteiro, você às partes, sujeito, predicados, voz ativa, imperativo,
O ímpeto em palavras para que dancemos a métrica.
Quero embebecer-me das tuas frases, em verso ou prosa,
E ter dos teus pensamentos os meus.

Leio-te e redijo cartas de amor; cartas de amor que nunca serão entregues;
Cartas de amor que serão racontadas ao pé do ouvido, sobre juras de amor eterno,
Sob os olhos atentos de Vênus a regar o campo de girassóis bebês.

Ricos, rimamos. Rimos enquanto amamos.
Quero-lhe, ter a tua na minha vida.
Quero literatura na minha vida.

domingo, 16 de outubro de 2011

La vita così com'è

desejo
sm 
1. desiderio.  
2. voglia, volontà. 
(...)
 5. piacere.

preferência
sf 
1. preferenza, predilezione.


Sacolejando numa carruagem cabriolet chegava àquela estância uma patricia, sem pai ou pátria, nobre pela própria natureza. Adentrava àquela vila sem referencial algum, exceto por um estimado amigo, O Coroado, que enviava-lhe, com uma disciplina quase militar, extensas cartas diárias escritas a pena e suor.

Sua chegada na pequena cidade fora notícia, afinal, forasteiros àquela estação eram deveras incomuns, e nEla convergiam todos os olhares, dos mais insignes aos nada opulentos, não por sua beleza, mediana, mas por sua confiança e independência. Não era de bom tom uma mulher andar sozinha por onde quer que fosse, como Ela acostumara-se a fazer, portanto O Coroado tomou-lhe a mão e guiou-a pelos caminhos eminentes locais que Ela conhecia somente pelos longos relatos.

Passado algum tempo, porém, Ela sentia-se fatigada e enfadada, um tanto ou quanto incompleta. Necessitava conhecer o outro lado da Verdade e, em segredo, começou a andar entre os criados. Estes sim eram sortidos e sortudos, com seu estilo de vida munificente e lúbrico; seguiam regras próprias e eram imunes aos estatutos dos deuses e dos anjos, livres na fé, escravos apenas da vontade de homens gigantes, a dita nobreza vigente.

Foi neste magote que Ela, camuflada, enquanto O Coroado dormia e supunha que ela fazia o mesmo sob seu lençol de cetim, conheceu virtuosos homens que inicialmente cortejaram-na, entretanto, depois, aceitaram-na como um dos seus pela reprodução, por parte dEla, do seus comportamentos. Dentre todos um chamava-lhe especialmente a atenção. Seu crânio era um pouco maior que o convencional e seus olhos, fundos como a madrugada, tentavam frustradamente esconder-nos seu prognatismo mandibular. Seus braços faziam-se ligeiramente mais compridos do que o daqueles que conhecia, eram lar de músculos definidíssimos que remetiam a um trabalhador de esforço e valoroso e era deveras hirsuto em membros e tórax. De longe lembrava um Hominoidea, nem alto nem baixo, com marcha própria e de pêlos nigérrimos como o piche, apesar da pele ser da cor da coalhada. Guglielmo era seu nome e do sul seu acento.

De lívida Ela passou a luzente, suas pernas, antes irrequietas, sossegaram e os sorrisos saíam fartos dos seus lábios rosados como bolhas num banho de espuma. O Coroado, suspeitoso, mandou observarem-na e suas escapulidas foram conhecidas e cerceadas. Havia de contentar-se apenas com passeios dentro dos limites de suas terras, que não eram poucas. Numa tarde, ao descer ao cercado dos animais, Ela avistou um vulto conhecido, nunca antes vislumbrado pelas propriedades do Seu Coroado. Era Gugli! Mesmerizada, Ela aproximou-se.

- Benvenuto, semplice contadino.* - e conteve o impulso de correr para abraçá-lo.

*os diálogos, a partir deste, serão traduzidos, para plena compreensão dos leitores.

- Olá, senhora. No que posso lhe ser útil? – disse Gugli com um sorriso no canto da boca, tão peculiar às noites de boemia que partilharam juntos.

- Sela-me um cavalo e flane comigo. Existem muitos bosques e trilhas, sendas e milhas para conhecer. Esta velha terra m’é nova aos olhos e seu povo ainda não é meu povo. Sê meu cicerone e tornemo-nos parte do todo.

- Sim, senhora. Levar-te-ei a veredas onde vossa mercê jamais sonhaste chegar.

Selou-lhe um cavalo, outro a si próprio, ganharam terreno e fizeram desta novidade um hábito. No começo ambos mantinham certa distância, com Gugli montando ligeiramente à sua frente para protegê-la de eventuais riscos. Aos poucos, durante os passeios, suas montarias (e seus olhares de concupiscência) foram aproximando-se até que um e outro, enfim, seguiam às trilhas de mãos dadas e, por diversas vezes, cavalgaram na mesma sela.

Os períodos passavam e Ela, cada vez mais envolta neste sentimento extasiante, desejava despender mais e mais tempo com seu consorte. Procurava-o sempre entre as baias, onde Gugli constantemente fazia-se presente, descamisado, nunca imberbe, escovando os cavalos ou trocando o feno sujo de estrume por outro de recém fenação. Este recebia-a sempre sorrindo, de braços abertos, pronto a sufocá-la contra seu peito.

Numa das tardes de primavera Ela novamente esgueirava-se para dentro da cavalariça, porém não foi recepcionada com o rotineiro beijo e abraço do seu amásio. Este ajudara a transportar para um dos boxes uma antiga, entretanto ainda nova, égua que pertencera à fazenda dO Coroado e fora readquirida num leilão. Gugli encontrava-se no compartimento da Velhinha, a égua, a escová-la com tanto carinho e dedicação que sequer reparara em Ela ou cedia-lhe muito de sua atenção. A partir daquele dia o peão seria visto somente na companhia da égua Velhinha, a pé ou a galope, estáticos ou passeando pelos pastos. Por vezes Ela deparava-se com Gugli amando Velhinha de modo poético, outras de modo carnal, e retrogredia enojada.

Num dos raros momentos em que Ela encontrou o cavaleiro sem a companhia de sua besta, perguntou-lhe:

- Ó, Primitivo homem, por que escolheste ela em detrimento de mim?  Tem esta égua alguma graça que eu não possua?

- Minha patrícia senhora, adoro tua companhia como a de uma irmã e regozijo-me contigo, mas vossa mercê não possui as ancas de parideira que tanto aprecio, ou a crina macia e sempre escovada da minha Velhinha. Nesta posso cavalgar como se fosse o inverso, sempre que sentir necessidades, porque ela não nega nada a mim, treinada que é nas artes animalescas.Eventualmente, quando sinto-me tentado à rudeza do coito, seguro suas crinas, um tanto rubras e perfumadas como gerânios vermelhos, e ponho-lhe com vontade, sem que esta refute ou reclame, pelo contrário.

- Compreendo suas necessidades de varão, Gugli, mas a égua, Velhinha, lê poesias para ti, como eu faço? Ela decifra-te o mistério das estrelas e conta histórias da época em que havia mais de um Deus, e que eles moravam no Olimpo e andavam entre os homens? Ela, a meu exemplo, te faz entender como agem os seres humanos e suas intenções ocultas, e o que eles dizem sem abrir a boca ou intentam o impronunciável somente com o olhar?

- Não, minha dama, a predileta dentre todas as patricias. Mas com a Velhinha posso passar o dia em sua cocheira, deitado ao seu lado, no feno, enrolando meus dedos em sua crina e proferindo amenidades enquanto ela me olha, silente e indolente, a concordar com tudo com seu sorriso universal. Não articula mais que dois ou três relinchos e, quando o faz, fa-lo em um tom baixo e suave, logo move sua cabeça e, com o olor de sua crina, injeta em minhas narinas mais de seu feromônio. Pouco resisto e já vejo-me dentro dela novamente.

- Acha-a de mais fino trato que eu, Gugli?

- Novamente a resposta é negativa, minha querida. Velhinha apenas é de mais fácil trato que vossa mercê. Ela contenta-se com sua mistura de feno, grama e leguminosas, as quais eu partilho, por condescendência. Suas ferraduras são de fácil forja e troco-as enquanto ela fica paradinha, como uma donzela a experimentar seu sapatinho de cristal. Inclusive tenho dois pares delas sempre comigo, caso haja necessidades ou imprevistos. Todo arreio lhe cai bem e, por mais singelo que seja, a cada trote e sacudidela da cauda – lançando mais feromônios no ar - torna-se mais fêmea aos meus olhos.

- Está certo... Sua escolha está feita, e seu destino traçado a trinta. Passar bem! – e saiu a passos largos para não desabar em lágrimas na frente do seu amado.

Então, Guglielmo, tempos depois, inesperadamente, numa queda foi ao chão, e a égua, danada égua, correu das suas rédeas e sela para o mundo selvagem dos cavalos garanhões. Gugli levantou-se, espanou as gramíneas do seu corpo, lavou seus cortes no rio de Heráclito, entretanto suas precisões fizeram-no trocar Velhinha por uma égua baia, das ordinárias a mais. E o padrão manteve-se...

E Ela? Continua a contar estrelas e histórias... Loba solitária que é.

sábado, 15 de outubro de 2011

Ah, se eu fosse um padre...

problema
sm (gr próblema)
1. Questão levantada para inquirição, consideração, discussão, decisão ou solução
(...)
5. Tema cuja solução ou decisão requer considerável meditação ou habilidade.
6. Qualquer assunto ou questão que envolve dúvida, incerteza ou dificuldade.

poema
sm (gr poíema)
1. Obra em verso.
2. Composição poética do gênero épico, mais ou menos extensa e com enredo.
3. Epopéia.
4. Obra em prosa em que há ficção e estilo poético.
5. Assunto ou coisa digna de ser cantada em verso.

adoçar
(a1+doce+ar2) vtd
1. Tornar doce: Adoçar o fel amargo da existência.
(...)
3. Mitigar o sofrimento de: A música adoça a tristeza. Adoçar alguém com presentes.
4. Atenuar o efeito de: Adoçar a lei, as fadigas. Adoçou a canseira com um banho.
5. Abrandar, suavizar: Adoçar o caráter, o natural.


Um dos axiomas da vida é: “todo mundo tem problemas”. Comigo não seria diferente, não é mesmo? O maior e mais torturante deles, no momento, relaciona-se à Universidade e a proximidade do seu término. Não entrarei em detalhes aqui, porque, né, não convém, mas procurei uma querida professora, que já me socorrera numa crise pregressa, para aconselhar-me sobre como proceder diante da realidade ululante. Conversamos por aproximadamente duas horas, nas quais me emocionei muito, trocamos confidências, abraçamo-nos e expurguei todos os meus demônios interiores. Inclusive citei meu gosto pela escrita amadora e a existência deste blog, o que fez os olhos da Professora brilharem.

Durante toda a conversa, que aconteceu no horário de almoço dos professores, supus que estávamos sozinhas numa das salinhas do Departamento, cujas paredes são vazadas. Ledo e feliz engano! Assim que despedi-me da professora, que remira minhas mazelas, e entrei no corredor do quarto andar do Hospital Universitário, reparei com a visão periférica que alguém tentava me alcançar e me chamava pelo nome.

-Patricia... Patricia...
-Oi... Professor?!
- Minha querida, nunca desista dos seus sonhos. Os problemas vem e vão e devemos ser capazes de enfrentá-los. Sê feliz! Continue escrevendo! Receba este poema e uma paçoca para adoçar a vida.

E ele entregou-me uma poesia linda (abaixo), em folha impressa, com pequenos rasgos, com marcas de fitas adesivas tiradas às pressas. Provavelmente a trova estava pregada na parede da sua sala por um tempo razoável, o que eleva ainda mais o valor simbólico do presente e da atitude. Obrigada, Professor Porphirio José Soares Filho, por ser um agente transformador positivo das pequenas cabeças dos estudantes universitários. Você faz a diferença!

Apreciem:


Se eu fosse um padre
Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!