domingo, 10 de abril de 2011

Nódoa sobre o carpete

nódoa
sf (lat notula)
1. Sinal deixado por um corpo ou substância que suja; mancha.
2. Med Mancha na pele, deixada por uma contusão; equimose.
4. Deslustre.
5. Afronta, ignomínia.

insônia
sf (lat insomnia)
1. Falta de sono.
2. Dificuldade de dormir; vigília; anipnia.
Var: insonolência.



E, naquela noite, ninguém ouviu o disparo fatal.

Nada havia sobre aquela pele alva além dos costumeiros hematomas. Perdera outra luta à Insômnia, a Maldita, um demônio familiar desde os tempos em que não havia nenhum pinheiro velho na Terra. Fazia parte de uma sucessão de bravos guerreiros fadados ao insucesso; toda noite era um elixir e um desespero, o desabrochar e o desfalecer, amável e terrível na presença de sua boca muda e seus olhos sempre fechados: assim instaurava-se o confronto entre a coruja de igreja e o roedor indefeso. Insômnia, a Cruel, cravava-lhe suas garras nas pálpebras do outro, impedindo o seu fechar, e sussurrava-lhe impropérios e inverdades que digeriam o cérebro de sua vítima notívaga, ou ao menos seu naco reservado ao sono. Deste modo nosso caro wistar acordava, morto, do sono não dormido, da batalha nunca ganha àquela que jamais quis vencer.

O que estou fazendo aqui? O que estou fazendo comigo? Nunca soube as devidas respostas para estas perguntas que não deveriam ter sido respondidas. Elas eram ratoeiras postas (e propostas!) pela Insômnia, a Sublevadora, sob o tentador disfarce da reflexão catártica que aquela ratazana, magra de doença, tanto gostava de pensar dominar. Ora essa, senhores, e não é sabido desde sempre que animais não pensam, agem? Como ninguém o avisou disto ele acreditou dominar as palavras, sem imaginar que a cada vez que pegava a caneta para escrever seus pensamentos injetava em si uma pequena dose de cicuta, e que a tinta que alimentava seus cadernos filosóficos era feita com seu próprio sangue, azul como sua nobre ascendência maldita.

Como a todos os filhos bastardos da Noite, a Estéril, só são dadas duas opções, ele ficou com a mais fácil. Sua tez era branca como o céu claro, em evidente oposição à negritude da Noite, a Nigérrima, numa forma infrutífera de lutar contra a realidade ululante prestes a engolir-lhe. A cor de sua pele era a manifestação mais grosseira e visceral de seu inconformismo com sua natureza; sofria diante da Lua, a Tetrafásica, e preteria seu pai, o Sol, o Cara Amarela, pois se não fora sequer acostumado ao calor humano, imagine ao celestial. Àqueles conformados com sua maternidade restava-lhes a pele, pêlo ou pena escura, e ou eram cegos – de paixão – ou olhavam à sua mãe, a Quarta, com olhos arregalados de pupilas dilatadas, aplaudindo silenciosamente antes de aplacar seu desejo de matar, desejo este possuído por nosso sofredor roedor.

Quando a Lua chegou, naquela noite, não estava escoltada pelas Estrelas, as Infinitas, e isto só poderia significar que mais cedo previra o desastre iminente e não queria testemunhas. Seria difícil demais para o nosso homem, feito rato branco pela vida, mostrar-se forte e decidido ao menos uma vez diante de vários seres que, na falta de luz própria, refletiam a dos outros. Ele era opaco, ou suas lentes é que estavam embaçadas desde sempre (e até nunca mais!)? Ciente disso Lua, a Madrasta, cobriu-se de nuvens e espiou por uma fresta a cena que se seguia.

Diante do único raio branco e frio que atravessava a janela aberta de sua sala (e este era o olhar do brilho secundário dAquela que Não Era Mãe), Pavlvs terminou sua refeição favorita, olhou-se no espelho uma última vez, assinou sua carta de despedida à única pessoa que – de acordo com o próprio e sua visão torpe – importava-se com ele, engoliu metade do cano da arma de fogo que estivera ao seu lado durante todo o ritual e puxou o gatilho. TEK! A primeira bala recusou seu destino. Tomara que a segunda apiede-se de mim. Antes de completar o pensamento caiu morto no tapete da sala... Foi-se tão só quanto chegou.

E, naquela noite, ninguém ouviu o disparo fatal.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A santa e a súcubo

santa
[Fem. de santo.]
Substantivo feminino.
1. Mulher canonizada:
2. Fig. Mulher virtuosa, bondosa, inocente.

súcubo
[Do lat. med. succubu, ?o que se deita por debaixo de outro? (< lat. tard. succuba, com infl. de incubus.] (...)
Substantivo masculino.
3. Demônio feminino que, segundo velha crença popular, vem pela noite copular com um homem, perturbando-lhe o sono e causando-lhe pesadelos.


Quando o sol bate em sua face, sua nívea e cândida face, e percorre sua pele de bebê que, de tão imaculada, retrai-se ao menor toque ígneo da claridade, Santina desperta, princesa e primeva. Lava-se, então, da polução noturna e esfrega-se com veemência sem olhar o seu sexo, parte inadmissível de si. Limpa e catártica veste-se com moderação, perfuma-se levemente e parte para o ofício, cabeça abaixada, esquivando o seu olhar do jugo alheio. Cruza senhoras e suas crianças, homens com olhar de fome, vigas, vidas, idas e vindas, até chegar ao trabalho.

Se galanteada pelo seu colega de serviço, moreno, queimado pelo sol que lhe fere, de sorriso branco, nada brando, a porta de entrada para aquela boca que já devorara muitas mulheres, Santina fica acanhada, e sua pele carmesim. Ela é pálida, contudo lamenta não ser diáfana.

Um gole de elixir e transmuta-se em deidade; Cleo é musa que, ao andar pela passarela, inspira o cio e a sede nos circundantes, homens ou mulheres. Cada movimento seu é o bailado de galhos de uma cerejeira com a brisa sudoeste, que aflam de modo arrítmico e magnetizante... É o convite para praticarem, a sós, a dança da vida, comutarem libidos e fluidos, respirarem um o ar que sai das narinas d’outro.

Cleo ignora as forças da gravidade, as leis da flexibilidade, ou seriam estas que curvar-se-iam aos seus portentos? Uma vez sob sua mira nada escapa-lhe ao ataque, preciso e cruel, com garras de fera pintadas de sangue, grunhidos felinos, chamados só antes ouvidos no baixo meretrício... Sua vida é sorvida pelos beiços carnudos de Cleo enquanto todos os seus desejos tomam forma e invadem a fôrma, friccionando-se como o arco às cerdas de um violino voluptuoso. E àqueles, felizes escolhidos para morrer de amor, só resta-lhes a rendição, e perecem de olhos abertos, incrédulos, extenuados.

Cleo lambe os beiços, inspira o olor orgástico e admira-se diante do espelho, corpo cheio de curvas, como têm também seus cabelos doirados. Veste-se com o essencial e ruma para casa, ordenando ao taxista com seu hálito de pecado. Deita-se, então, barulhenta, para acordar Santina. E o hábito refaz-se.

sábado, 22 de maio de 2010

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.

viver
[Do lat. vivere.]
Verbo intransitivo.
1.Ter vida; estar com vida; existir:
2.Perdurar, subsistir, existir; durar:
3.Passar à posteridade; perpetuar-se:
4.Gozar a vida, sabendo aproveitá-la:

sofrer
[Do lat. *sufferere, por sufferre.]
Verbo transitivo direto.
1.Ser atormentado, afligido por; padecer:
2.Tolerar, suportar, aguentar:
4.Ser vítima de, passar por, experimentar (coisa desagradável ou danosa):
Verbo intransitivo.
6.Sentir dor física ou moral:
8.Padecer com paciência.
Verbo pronominal.
11.Conter-se, reprimir-se, sofrear-se.


“Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tanto anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes — aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.”
(O Lobo da Estepe - Herman Hesse, página 34)


Ontem, durante o almoço, conversando sinceramente com uma amiga queridíssima, entretanto pouco presente no meu atual cotidiano, cheguei à conclusão de que queria ser uma pedra. Simples assim, uma pedra. Não um busto de alguém notório em pedra polida, nem uma pederneira que seria o gatilho para uma noite clara e confortavelmente morna àqueles perdidos na selva de si mesmos, muito menos uma pedra preciosa, ou a filosofal, com sua feitiçaria e beleza sem precedentes.

Eu queria ser uma pedra, e levar a vida que as pedras levam. Elas é que são felizes. Elas é que sabem viver. Os penedos não só existem como resistem bravamente a esta vida de malogros e flagelos, uma desdita sem fim cujas imperfeições estão mascaradas sob o pó do utópico final feliz. Poderia você afirmar, diante do deus que acredita, sem ter remorso ou soar falso, que é verdadeiramente feliz? Responderia você de modo afirmativo e imediato ao demônio, referido por Nietzsche em A Gaia Ciência, que oferecer-te-ia a lei do Eterno Retorno?

Diante do enigma da existência, um lugar seguro para se viver pode ser... Lugar nenhum. Utopia quer dizer “não-lugar”, um sonho que alimenta a esperança do homem por uma vida em que reina agonia e aparente felicidade em estado alternado como são salteados também as cores de um tabuleiro de xadrez. Eis o cheque-mate que vos faço: sonhar com o impossível é um sonho que vale a pena? Melhor viver o ideal utópico ou a realidade trágica?


Queria ser uma pedra e poder esquivar-me do mal estar que se grassa na civilização e nos é o mais déspota estadista. O sofrimento não acontece em você, não entra por uma brecha da sua alma. Ele sempre esteve ali! Ele faz parte do seu espírito, como ser vivente e inteligente. Nossa psique sofre porque sabe mais do que deve, mas nunca saberá tudo o que precisa. Somos deuses fadados ao eterno martírio por estarmos amarrados a um corpo em constante putrefação desde o segundo em que, ao nascer, inspiramos o oxigênio, vital e tóxico, nosso primeiro paradoxo, e temos como o mais rudimentar dos sons o choro, já pelo desgosto da vida. Existe, de alguma maneira, a dissociação entre viver e o sofrer? Vale a pena você lutar contra o destino, ainda que, no final, você seja (e será!) derrotado por isso?

A única maneira de ser feliz, creio, é viver sem grandes ilusões, como fazem as britas, que nada mais são ou querem ser do que pedras lascadas pela vida e para os viventes, e tocam sua existência aplástica em tons castanhos e cinzas como são estranhos e cinzas os restos mortais do nosso couro que reveste o grande pesar interior. E quando, não muito distante da data de hoje, cansar de viver, simplesmente deixaria de resistir e viraria um punhado de areia a viajar na garupa do vento e a entrar nos olhos daqueles desavisados que olham para o sol e querem ver mais das verdades de Galileu e de Deus. E estes, antes de virar sílica, agradecer-me-ão por cegar-lhes à realidade e apresentar-lhes o indulto e a desgraça de ser uma rocha.

Sabe qual meu maior medo? Viver eternamente.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

De pró-são!

suicídio
(u-i). [Do lat. sui, ?de si?, + -cídio.]
Substantivo masculino.
1.Ato ou efeito de suicidar-se.
2.Fig. Desgraça ou ruína procurada de livre vontade ou por falta de discernimento.

pró
[Do lat. pro.]
Advérbio.
1.A favor.

são
[Do lat. sanu.]
Adjetivo.
1.Que tem saúde; sadio:
2.Que recobrou o estado de saúde; curado.
3.Ileso, incólume:
(...)
8.Razoável, moderado.

Tomo a liberdade de criar uma palavra. Os unificadores xiitas da língua portuguesa hão de me perdoar, mas o assunto é seriíssimo. É questão de vida. De suicídio.

Hoje, 24/02, foi descoberto o corpo em putrefação de uma garota da minha faculdade. Um período acima. Um ano de idade abaixo. Hoje, 24/02, foi descoberto que a menina, Maria*, sofria. Hoje, 24/02, foi descoberto que um pouco de calor humano poderia fazer a diferença na escolha entre a certeza de viver e o planejamento do morrer.

Maria era uma menina aparentemente comum. Tinha dilemas, como todas as pessoas normais da nossa idade, com prazeres e desgostos em relação à sua atual realidade, sabor agridoce altamente incidente a todos que fazem nosso curso universitário, era prestativa, introvertida, adepta dos “poucos e bons” amigos. Mas Maria era mais. Era uma sofredora solitária. E a Angústia, incomensurável que só ela, parida numa depressão arrastada, ultrapassou o instinto mais primitivo dos seres viventes: o da auto-preservação.

Angústia, a filha bastarda da Morte, que dela herdara o sentimento de incômodo, eterno enquanto durar, pegou a mão de Maria, como mãe e filha, caminharam juntas sob promessas de resolução, e disse à menina que o caminho a seguir era procurar a felicidade n’outra vida... Que não haveria esperança enquanto ela fosse Maria... Que Maria não faria falta, era parte do excesso populacional do planeta. Corpo a menos na Terra, espaço garantido no céu. Maria, cega pelas lágrimas ácidas que eram suas únicas companheiras há meses, fez do ambiente doméstico seu sepulcro, do fio do telefone sua espada justiceira. Solitária foi sua morte, reflexo do espaço vazio que existia sempre que se olhava no espelho da vida.

Numa rápida retrospectiva, ao ler as linhas e nós do tecido do tear da vida de Maria, sob o olhar sempre desconfiado de uma das Parcas, a fiadora, vemos fios grossos de uma solidão profunda. A menina tinha na pele a cor do frio que sentia, do papel em branco onde estavam escritos o nome de seus amigos. Ela vivia sob a neve da reclusão; sem braços calorosos para envolver-te; faltava-lhe uma companhia para terapiar.

Ah, terapiar!, o ato de trocar amadoramente experiências e conselhos entre pessoas que se prezam. O dom mágico que nos foi agraciado com o advento das palavras. O melhor dos presentes, o maior dos antídotos. Todos terapiamo-nos, uns mais, outros menos, ou deveríamos fazê-lo. Terapiar seria o elixir de Maria, como foi o de Josés, Joões, patrícios e Patricias. Devolver-lhe-ia o sorriso branco no rosto, o róseo das bochechas, o colorido da vida.

Maria não era uma suicida típica, como poucos, desse contingente, o são. Um suicida em potencial anda entre todos sem trair-se pelo olhar, pode almoçar contigo e se matar 30 minutos depois, pode ser um dos seus melhores amigos e você não saber. Um suicida em potencial não faz drama ou alarde, é alguém que, silenciosamente, grita por socorro. Pode ser seu pai, seu amigo, ou aquele vizinho de apartamento que sempre aperta o botão do andar pra ti por pura gentileza.

Tenho uma missão pra você, que lê este texto. Sabe aqueles seus amigos, assim, muito queridos, e que há tempos vocês não se falam? Então, faça-os saber que são amados, e que as águas do tempo não apagaram seus nomes escritos na areia da sua vida. Olhe para o lado, pros seus companheiros do dia-a-dia, aqueles que sorriem e choram contigo (ou por ti, pra ti), agüentam teu mau-humor e são mal-humorados contigo. Abrace-os fortemente sempre que os vir para que eles sintam, pelo tato, que seu coração bate mais rápido e forte toda vez que os identifica na multidão de conhecidos. Perdoe seu pai/irmão brigão... Por mais que vocês não se dêem bem, um faria uma falta cabal para o outro. Dê importância a quem te é precioso. Esta é a lição que as parcas amizades de Maria propagarão durante suas vidas. Maria quis morrer, mas fez-se eterna. Este é o assunto do próximo post.

*Maria é um nome fictício para que não houvesse a identificação da alma sofredora por curiosos. Neste momento ela precisa de orações, não de pena.

domingo, 15 de novembro de 2009

Ciclo sem fim

milagre
[Do lat. miraculu.]
Substantivo masculino.
(..)
2.Acontecimento admirável, espantoso:
3.Portento, prodígio, maravilha:
4.Ocorrência que produz admiração ou surpresa:

Sou muito resistente em propagar expressões clichês, frases feitas, sabedorias populares. Mas muito mesmo! Acho tudo muito reducionista, conveniente e visceral, em detrimento do cerebral. Fala-se sem pensar, só porque ouviu a tia, o vizinho ou o cachorro de rua que é BFF (best friend forever) daquele mendigão da esquina dizerem. Nisso inclui-se o dito ‘milagre da vida’. Pra falar a verdade, não acredito nem em “milagre”, “magia” nem em “acaso”. São todas formas de negar forças ainda desconhecidas, mas que serão axiomas em 100 ou mil anos. Milagre, magia e acaso serão as futuras leis de Newton, Avogrado e Gay-Lussac. O porquê d’eu começar o texto enterrando os pés no chão fica claro ao longo dele.

Na semana do dia 20 de agosto de 2007, ou um pouco antes, recebemos, eu e meus pais, a notícia de que minha irmã estava grávida. A mais inesperada de todas as gravidezes. O Chefão das surpresas ditas aquele mês. Inicialmente questionada, porém nunca preterida, a prenhez da minha irmã foi acompanhada com todo o cuidado que poderia ser oferecido. Pra mim e meu pai, ainda, aquela protuberância na barriga dela que tomava tamanho e forma era mais que o ‘milagre da vida’ manifestado. Era nidação, mórula, gástrula; endo, meso e ectoderme; duas arterias e uma veia umbilical; alterações corporais e hormonais. Nossos olhos eram mais acurados, entretanto não por uma possível inteligência superior, e sim por muita reprodução automática de puro conhecimento cientificista.

Depois da ciese veio o parto, e com ele o neto primogênito de meus pais. Arthur? Gabriel? Não, fixou-se João Pedro. ‘Milagre da vida’! Menino saudável, sorridente, com pele de algodão e cabelos que eram palhas de trigo, macias, mansinhas, que dançavam conforme o acariciar do vento. Mas a ordinariedade – se é que teve alguma – acaba por aí. A criança, meu sobrinho, teve um desenvolvimento assustador e formidável (não me pergunte o porquê, ainda me é um mistério). Em espaços temporais mais curtos que minhas viagens estudantis aquele naco de carne, draga de leite, filhote de nuvem, tornou-se o mais expressivo dos seres. Embasbacava-me cada progresso sobre-humano que aquele refilho fazia. Estava diante do meu primeiro ‘milagre’?

Eu já estudara as fases do desenvolvimento infantil na faculdade, porém aquela experiência estava sendo totalmente surpreendente. João Pedro ignorava os compêndios de Pediatria e crescia na sua própria rapidez. Cheguei a suspeitar que nem humano ele fosse. Aquele bebê de movimentos restritíssimos na minha última memória vinha em minha direção com um andar malandro e natural, como se o fizesse, por hábito, há muito tempo. Aquela criança, com o número de meses de vida bem menor que o que eu tinha de anos, usava a visão periférica como um caçador inato. Todas as novidades, de um simples mandar beijo, até movimentos de perna relativamente complexos, ele apreendia e reproduzia fielmente na primeira tentativa. Qual seria o limite daquele menino?

Na minha última visita à casa dos meus pais, há cerca de um mês, encontrei um Joãozinho recém acordado que pediu o colo da tia na mesa de café-da-manhã. Era a primeira vez que nos víamos desde a agosto, ocasião em que ele me presenteou, no dia da minha partida pra Niterói, com a palavra “titia”. Sobre minhas coxas, e diante de uma mesa mui farta, ele gorjeou as palavras “pão, bolo”, e apontou com precisão pros alimentos assim nomeados. Paralisei diante da cena, olhando incrédula pro pequeno adulto. “Pão, bolo, titia” vieram em seguida ao olhar suplicante dele. Deus! Ele estava adiantado mais uma vez!

Para estimulá-lo – e ele é facilmente estimulável e responsivo – ensinei ao João algumas palavras. A primeira foi “folha”, apontando pro jornal Folha de São Paulo. “Folha!” “Fo...” “Folha!” “Fo...la” “Folha!” “Fola” “Fo-lha!!!” “Folla”. Esta situação me remeteu a uma das melhores e mais marcantes cenas de um dos melhores e mais marcantes filmes da minha infância. Quem, nascido entre 84 e 88, nunca assistiu Bambi, um clássico da Disney? Dos que assistiram, quem não lembra do coelhinho Tambor ensinando o jovem gamo a falar? Eis o trecho referido (só achei em português de Portugal), sendo Titia e João Pedro Tambor e Bambi, respectivamente:

http://www.youtube.com/watch?v=n2iqqp6SU5U

Agora costuro o retalho que nos leva ao primeiro parágrafo. Não, não acho as atitudes do Joãozinho um ‘milagre’, por mais que os clichezeiros apregoem este ser o ‘milagre da vida’, mas não posso negar a imprevisibilidade e extraordinariedade do ocorrido. Ele está uns bons meses adiantado no desenvolvimento psicomotor, e tem atitudes assombrosamente inteligentes e adultas. Não é um gênio, que nasce sambando e compondo letras à Chico Buarque, ou apresenta programas infantis em TVs secundárias/terciárias, mas definitivamente não é como os outros da mesma idade. Sua rápida ascendência nas adaptações da vida não é um “milagre”, religiosamente falando, todavia é um “milagre”, aurelicamente usando os significados destacados.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Ser ou não ser?

extinção
[Do lat. exstinctione.]
Substantivo feminino.
1.Ato ou efeito de extinguir(-se); cessação:
2.Abolição, supressão:



Estava hoje, 17 de setembro, conversando com um amigo queridíssimo, que passa por um problema pessoal similar ao meu (assunto pra outro post), sobre o porquê de sermos tão infortunosos no amor. Conversa vai conversa vem constatamos uma teoria que faz muito sentido, pelo menos para nós, com corações suturados. Explicito esta hipótese a seguir:

Dividimos todos os seres viventes e conhecidos em duas categorias: VACAS ou PESSOAS ESPECIAIS. Veja bem, são termos meramente ilustrativos que facilitam a compreensão. Poderiam ser chamados de X e Y, ou Tom e Jerry com efeito símile.


As Vacas são as pessoas simples de pensamento, profundidade de um pires, muitas vezes com o raciocínio de uma pedra ou um celenterado, que se contentam com o regular; comem qualquer capim, desde que seja mastigável, desde o mais puro verde, até aquele de tons dourados, demi-sec. Os Especiais são aqueles de intelecto, raciocínio quântico, cultura (aplicativo não obrigatório), inteligência, poder de abstração, percepção; aqueles que querem mais e mais, eternos insatisfeitos desejando galgar os andares mais altos, solucionar as charadas mais difíceis. Para os Especiais não há estagnação, uma vida de 100 anos tem 100 anos de processo evolutivo. A busca pela qualidade é incessante, o crivo crítico implacável. A proporção de Vacas para Especiais é 10 elevado a alguma coisa pra 1.

Atentamo-nos a explicar o motivo de sermos tão poucos. Tenho certeza que os três conhecidos que lêem este blog sabem o que é darwinismo, mas não posso apostar por eventuais e casuais leitores. Com uma explicação bem rápida, darwinismo foi uma doutrina proposta por Charles Darwin em seu livro Da origem das espécies (1859), no qual a luta pela vida e a seleção natural são apontadas como os mecanismos essenciais da evolução dos seres vivos. Durante a transição de gerações considerável número de indivíduos falece; os que sobrevivem e geram descendentes são aqueles selecionados e adaptados ao meio devido às relações com os de sua espécie e também ao ambiente onde vivem. Está aí a palavra mágica: ADAPTAÇÃO.

Voltando ao teorema, aplicamos o darwinismo na elucidação do número diminuto de Especiais. Somos poucos porque não estamos adaptados ao meio e à maioria. Explico: por que os Vacas são tantos? Porque eles são menos seletivos, precisam de menos para atingir a felicidade; veem menos, então sofrem menos, são menos críticos, contentam-se com o que conseguem. Assim não há, no geral, desarmonia que impeça a aproximação e reprodução destes, transmitindo suas características adaptadas de Vaca aos seus descendentes. Não há crise, há sexo, há prole.

Já os Especiais, mestres da crítica, filtradores por natureza, tem sempre o horizonte como meta. No geral tem aproximação fácil por outros Especiais, trocam palavras enaltecedoras e podem até se relacionar amorosamente, mas a chance de ser um enlace infrutífero é grande. Especiais são menos tolerantes aos defeitos e erros, por remeterem aos Vacas, que não lhes atraem. Um Especial que mostrou sua humanidade ao falhar n’algum aspecto vira um híbrido, Anjo com cascos de Porco, ou Vaca, um ser menos digno de ter o amor puro e alvo de um Especial puro e baio. Assim há o afastamento, a desafeição e a não-reprodução.

Frequentemente os Especiais, únicos ou poucos numa região, são cercados por Vacas, que não lhe atraem muito além da companhia. Aqueles mais condescendentes podem se permitir tolerar uma Vaca do sexo oposto como companheira em prol de uma instituição maior a ser formada: a família. E assim há transmissão de genes, que poderão formar tanto filhos-Vaca com vislumbres Especiais quanto crianças-Especiais, mas mais impuras que a geração acima. Ainda pelo cálculo gênico filhos-Vaca de um dos pais Especial podem ter netos Especiais, o que torna esta categoria rara, mas passível de sustentação ao longo dos tempos.

Não digo que Especiais amem mais, mas agudizam os sentimentos em maior escala, o que é uma característica que depõe contra a espécie. Alcançar extremos no movimento pendular do Amor é um atributo contra-evolutivo. Não estranhem sermos poucos, nem que nosso número diminua com o passar das décadas. Só estranho o fato de não darmos certo uns com os outros. E meu amigo também. Nossos ex-parceiros, Especiais, que o digam.



Escrevi o post com o coração na mão esquerda e ouvindo Apesar de você - Chico Buarque, por motivos pessoais que contarei em outro post, espaçado deste por tempo indeterminado. Talvez nunca venha.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Dama do século 21 (?)

arrependimento
[De arrepender(-se) + -imento.]
Substantivo masculino.

1.
Ato ou efeito de arrepender-se.
2.
Compunção, contrição.
3.
Ét. Insatisfação causada por violação de lei ou de conduta moral, e que resulta na livre aceitação do castigo e na disposição de evitar futuras violações.

De pés descalços Ela caminha, na areia, em direção à sua casa. Seus cabelos eram da cor do sol que refletia no mar a sua direita. A festa do dia passado fazia-se presente hoje; e Ele, em casa, dormia. O sal da maresia penetrava-lhe as narinas e lembrava a Ela que nem tudo da noite anterior fora doce. Aquele quinze ficaria em sua memória, como outros números: era seu sexto dia na cidade, a terceira vez que via o Outro, e sua (dEla) primeira traição.



Já passara da meia noite e Ela não poderia ir embora. Não sozinha. Não depois de onze cervejas. O Outro oferecera sua casa, em troca de silêncio; ou seja: sua cama... Com ele junto. A troca de olhares, um devorando mentalmente o outro, estava presente há horas. Eram jovens adultos, com muito em comum, cujas libidos estavam afloradíssimas. Ela, alva como o dia; ele, moreno-tentação. E Ela cedera ao convite ao pecado. Caminharam até a casa do Outro.


No elevador aconteceu um abraço – “Amiga eterna, sempre nos ajudaremos na faculdade?” – e algo molhou o pescoço dEla. Silêncio no apartamento do Outro: todos dormiam, menos suas intenções. Respirando o ar que saía das narinas dele, outro abraço pediu para acontecer. Duas mãos seguiam das costas em direção caudal – uma dEla, e a outro d’Outro. Não havia mais volta, seus corpos se roçariam até que um deles (ou ambos) perdessem o fôlego. Naquela noite de sexta duas crianças brincaram de fazer amor.


A Claridade veio de mãos dadas com a Responsabilidade. Para cumprir a promessa de silêncio deveria partir imediatamente! Ao passar em frente a casa dEle (Ele e o Outro eram vizinhos – que ironia) Ela experimenta o torvelinho da ressaca moral; provavelmente Ele dormia com os anjos, e coçaria sua testa mais tarde, não em reflexo ao pousar de um díptero, mas pela noite em claro daquela que Ele chama de Meu Amor.


Ruborizada, afasta-se em direção ao banco da praia. Quis dar um mergulho, roupa e tudo, para deixar ali as proas líquidas da noite anterior, mas não o fez: o mar estava tão sujo quanto a moral de Ela. Contentou-se em voltar pra casa, pé na areia, lentamente, bela e solitária como a Lua, para mais um dia que se inicia; melhor seria se fosse noite.


Bom descanso, Dama da Esbórnia!